Grupo Tempo - Página de Abertura
Excertos de uma entrevista com
Roberto Mallet à Rádio UDESC

sobre o workshop
O Artista e o Homem no Artista

 

Entrevista concedida a Maryanne Mattos em 26 de março de 1999

  

Maryanne - Roberto, do que trata o workshop "O Artista e o Homem no Artista"?
  
Roberto Mallet - Bom, fundamentalmente o nosso objetivo é procurar fazer com que as pessoas compreendam que o artista não está isolado do homem. Para ser artista você tem que antes ser homem. E muitas vezes você encontra hoje em dia o pensamento de que o treinamento técnico, a habilidade técnica, é que faz o artista. Isto é verdade, mas a qualidade da obra de arte é como que um resplendor daquilo que o homem é, e que, utilizando-se da técnica, ele nos transmite. Daquilo que ele tem a nos dizer. Quer dizer, não adianta você ter toda a técnica do mundo se você não tem nada pra me dizer. Não é possível que o que você tenha pra nos dizer seja simplesmente a repetição, como um papagaio, dos pensamentos e dos slogans que estão no ar, o que a gente vê muito por aí. A gente vê os artistas reproduzindo os pensamentos de outros artistas, ou de filósofos, mas de uma maneira quase mecânica, sem que eles realmente tenham uma compreensão existencial daquelas coisas. Então, a obra de arte se torna uma obra de arte referencial, o que é muito comum na pós-modernidade, na arte contemporânea. As pessoas falam de tudo e entretanto elas não me tocam, em nenhum momento... Se você for a uma Bienal hoje você vai perceber exatamente isso...
  

Maryanne - Muita informação...

Roberto Mallet - Muita informação, às vezes muito orgulho mesmo, muita vaidade, onde qualquer idéia esdrúxula pode se tornar uma obra de arte; quer dizer, a obra de arte se torna um evento, uma performance... Você vê dúzias e dúzias de pares de sapatos amontoados, por exemplo, e aquilo entra numa Bienal... Nós vivemos na civilização do instante, perdemos todo contato com aquilo que é eterno, com aquilo que é perene, com os valores, e esse reino do instantâneo também penetrou no universo da arte - o artista passa a não perceber mais qual é a sua função. Não sei se não estou sendo muito prolixo...
   Talvez contando uma história que certamente eu vou contar no workshop... Existe um poema de Píndado, um poeta grego do século V a.C., em que ele conta a gênese das musas: quando Zeus criou o universo, ele chamou os deuses do Olimpo pra uma festa e pra que eles admirassem a sua grande obra. Todos admiraram-na, e logo um dos deuses levanta a mão e diz: "olha, é tudo muito bonito, mas esses universo que você criou tem um problema. Não tem nenhum ser que te louve por essa criação... Porque o homem, esse homem que tu criaste, tem um defeito: ele se esquece. Ele não tem boa memória, e esquece das coisas com facilidade. Zeus concorda que realmente há esse defeito no homem e ele cria as Musas, que são filhas de Mnemôsyne, da Memória, para lembrarem o homem da maravilha da criação e das coisas mais importantes. Um professor da USP que comenta esse texto, Luiz Jean Lauand, diz que o homem se esquece somente das coisas essenciais; das coisas superficiais e momentâneas ele não esquece. A gente sabe exatamente nosso saldo no banco, o horário do programa na televisão, etc., etc... Mas das coisas mais fundamentais, é preciso que a arte, é preciso que os filósofos, nos lembrem. E a arte contemporânea não está mais cumprindo esse papel. A arte contemporânea fala daquilo que nós já sabemos. Fala do nosso cotidiano, em geral.
  

Maryanne - A arte hoje em dia é um produto de lazer.

Roberto Mallet - Isto não se refere apenas ao teatro, mas a todas as artes. Hoje em dia, numa sociedade materialista, numa sociedade de consumo, onde o objeto se torna a coisa mais importante, há uma certa inversão de valores. Se voce pegar um Shakespeare, um Dante Alighieri, um Leonardo da Vinci, enfim, você vai ver que esses artistas eram antes de tudo grandes homens, muito bem educados, homens que procuravam viver uma vida honesta, íntegra, de forma que a arte deles era como que um testemunho, um depoimento e uma mensagem que eles nos mandavam (não é que não existam artistas assim hoje, mas não é a maioria, e nem são aqueles que estão sendo patrocinados pelos poderes econômicos e midiáticos - não são esses, em geral, que estão na Folha de São Paulo, por exemplo). Aqueles artistas eram grandes homens, antes de tudo, e a obra deles era uma mensagem que eles nos transmitiam. Sempre se pensou que a arte - e a arte-educação ainda pensa isto de alguma forma, um pouco canhestra, talvez -, sempre se pensou que a arte era uma maneira de formar os homens. Aristóteles pensava isto, por exemplo. Quando fala da arte, ele diz que a finalidade da obra de arte é tornar o homem melhor. Muitas das obras de arte hoje não tornam os homens melhores - ou são simples passatempos, como uma pizza que você vai comer, como a praia onde você vai passar duas horas, ou, pior do que isto, são prejudiciais, deformam o homem.
   (...)
  

Maryanne - Roberto, mais uma pergunta. A tua visão dos acadêmicos de artes hoje? No ensino de arte que é dado para esses novos artistas através de uma academia ou uma escola, essa visão de arte como lazer, mais superficial, está presente?

Roberto Mallet - A universidade está em crise, sem dúvida nenhuma. E não só no Brasil. Existe um livro do Allan Bloom, um professor americano, chamado O Declínio da Cultura Ocidental, em que ele faz uma crítica muito séria à universidade americana. Uma das coisas que ele diz nesse livro é que os clássicos da literatura estão sendo relegados a um segundo plano, e às vezes a um terceiro, em nome de uma literatura produzida hoje e que corresponde à ideologia vigente, "politicamente correta". Então, Shakespeare é machista, e já não entra nesse quadro. Dante é católico, e já não entra. A grande literatura é banida do meio acadêmico americano em nome do pensamento ideológico vigente. Isto é um grande perigo. E isto acontece em todos os campos das ciências humanas. (...)
   Agora, especificamente em relação ao artista, o artista hoje também obedece muito à lógica de mercado. É esperado, porque todos nós temos que comer, vestir, etc... Mas é um grande perigo, porque, se você olhar a história da arte você vai ver que os grandes artistas jamais se dobraram a esse tipo de exigência. Você vai ver que muitos grandes artistas foram pobres, e tiveram dificuldades financeiras graves, pra poder realizar suas obras. Quer dizer, isto aí não tem nada de novo. Então é preciso encontrar um certo equilíbrio nisso e não deixar que a exigência do mercado se torne muito mais importante do que a exigência da arte e dessa função transcendente que ela tem dentro da comunidade humana. A riqueza é perigosa. Sempre você poder ser mais rico. Há grandes artistas brasileiros que foram simplesmente comidos pelo mercado. Enfim, é preciso que a lógica de mercado não nos afogue.


 

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