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Grupo Tempo - Textos
Teresinha

Roteiro e tradução de
Roberto Mallet
 

 


VOZ OFF  -  Suponhamos que um dos anjos, lá do alto de suas rutilantes galerias, queira mostrar a algum outro anjo distraído o que é um homem.  Mostraria primeiro o Cristo; depois mostraria o santo; e finalmente, movido por um frêmito de ternura e esperança, mostraria uma criança.  Não por causa de seu estado moral, mas pela completude e pela inteireza de seu ser.  A criança está toda ali.  Se mostrasse um de nós o anjo teria que entrar numa laboriosa e abstrata argumentação para explicar que faltavam tais e tais coisas, porque nós estamos dispersos, porque espalhamos pelos quatro ventos os pedaços de nossa infância.  A criança não, está ali; pequenina e não experimentada embora, suspensa por um fio, empurrada para a vida, mas ainda está ali.  Inteira.  Virginal.  Misteriosa.

TERESINHA I -  Sempre desejei ser uma santa, mas, ai, sempre constatei, quando me comparava aos santos, que há entre eles e eu a mesma diferença que existe entre uma montanha cujo topo perde-se nos céus e o grão de areia obscuro pisado pelos pés dos transeuntes; em vez de me desencorajar, disse para mim mesma: o Bom Deus não poderia me inspirar desejos irrealizáveis, posso portanto, apesar da minha pequenez, aspirar à santidade; não posso eu mesma aumentar o meu tamanho, devo suportar-me tal como eu sou com todas as minhas imperfeições, mas vou procurar o meio de ir para o Céu por um caminhozinho bem reto, bem curto, um caminhozinho inteiramente novo.

TERESINHA II -  Há uma pequena passagem da minha infância que é o resumo de toda a minha vida.  Um dia, Leônia, minha irmã mais velha, achando que já era muito grande para brincar de boneca, veio até mim e Celina com uma cesta cheia de vestidos e de lindos retalhos; por cima estava  deitada sua boneca.  "Tomem, minhas irmãzinhas, ela nos diz, escolham, eu lhes dou tudo isto!"  Celina estendeu a mão e pegou um pacotinho de alamares que lhe agradava.  Após um momento de reflexão estendi a mão por minha vez e disse: "Eu escolho tudo!", e peguei a cesta sem nenhuma cerimônia.

TERESINHA I  -  Mais tarde, quando a perfeição apresentou-se para mim, compreendi que para tornar-me uma santa era preciso sofrer muito, buscar sempre o que é mais perfeito e esquecer-se de si.  Compreendi que havia muitos graus na perfeição e que cada alma era livre de responder aos chamados de Nosso Senhor, de fazer pouco ou muito por Ele, em uma palavra, de escolher entre os sacrifícios que ele pede.

TERESINHA II -  "Meu Deus, eu escolho tudo.  Não quero ser uma santa pela metade; não tenho medo de sofrer por ti, só temo uma única coisa, ficar com a minha vontade; toma-a, pois "eu escolho tudo" o que tu quiseres!..."  Compreendo tão bem que o amor é a única coisa que pode nos tornar agradáveis ao Bom Deus que esse amor é o único bem que ambiciono.  Jesus quis mostrar-me o único caminho que conduz a essa fornalha Divina, esse caminho é o abandono da criancinha que adormece sem medo nos braços de seu Pai...

TERESINHA II  -  E o profeta Isaías clama em nome do Senhor: "Como uma mãe acaricia seu filho, assim eu vos consolarei, eu vos carregarei em meu colo e vos acariciarei em meu regaço."

TERESINHA I -  Ah, diante de tal linguagem, nada se pode fazer senão emudecer, chorar de reconhecimento e de amor...  Se todas as almas fracas e imperfeitas sentissem o que sente a menor das almas, a alma da Teresinha, nenhuma delas desesperaria de chegar ao topo da montanha do amor, pois Jesus não pede grandes ações, mas somente o abandono e o reconhecimento.

TERESINHA II  -  Jesus não tem necessidade de nossas obras, mas somente de nosso amor, pois esse mesmo Deus que não tem nenhuma necessidade de nós não teme mendigar um pouco de água à samaritana.  Ele tinha sede...  Mas ao dizer "dá-me de beber" era o amor de sua pobre criatura que o Criador do universo pedia.

TERESINHA I -  Ah, sinto mais do que nunca que jamais Jesus fica saciado, ele só encontra ingratos e indiferentes entre os discípulos do mundo e entre seus próprios discípulos ele encontra, ai, poucos corações que entregam-se a ele sem reservas, que compreendem toda a ternura de seu Amor infinito.

TERESINHA II  -  Sempre procurei amar muito a Deus, e amando-o compreendi que meu amor não podia traduzir-se somente em palavras, pois: "Não são aqueles que dizem: Senhor, Senhor, que entrarão no reino dos Céus, mas aqueles que fazem a vontade de Deus."  Na última ceia, esse doce Salvador disse a seus discípulos:  "Eu vos dou um novo mandamento, que vos ameis uns aos outros, e que, como eu vos amei, vós também vos ameis uns aos outros.  Nisto é que todo o mundo conhecerá que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros."  Como Jesus amou seus discípulos e por que os amou?  Ah, não eram suas qualidades naturais que poderiam atraí-lo, havia entre eles e Ele uma distância infinita, Ele era a ciência, a Sabedoria Eterna, eles eram pobres pescadores ignorantes, repletos de pensamentos terrestres.  Entretanto Jesus lhes chama seus amigos, seus irmãos, quer vê-los reinar junto com Ele no reino de seu Pai e para abrir esse reino para eles quer morrer em uma cruz:  "Não há maior amor do que dar a sua vida por aqueles que se ama."
   Meditando essas palavras de Jesus, compreendi como meu amor por minhas irmãs era imperfeito, vi que não as amava como o Bom Deus as ama.

TERESINHA I -  Ah, compreendo agora que a caridade perfeita consiste em suportar os defeitos dos outros, em não espantar-se com as suas fraquezas, em edificar-se com os menores atos de virtude que os vemos praticar, mas sobretudo compreendi que a caridade não deve permanecer encerrada no fundo do coração:  Ninguém, disse Jesus, acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro, a fim de que ela ilumine todos os que estão na casa.  Parece-me que essa candeia representa a caridade que deve iluminar, alegrar, não somente aqueles que me são mais caros, mas todos aqueles que estão na casa, sem excluir ninguém.
   Quando o Senhor ordenou seu povo amar seu próximo como a si mesmo Ele não tinha ainda vindo à terra, e sabendo bem quanto alguém ama sua própria pessoa, não podia pedir a suas criaturas um amor maior pelo próximo.  Mas quando Jesus deu a seus apóstolos um novo mandamento, o seu mandamento, como disse logo depois, não é mais de amar o próximo como a si mesmo que Ele fala mas de amá-lo como Ele, Jesus, o amou, como Ele o amará até a consumação dos séculos...
   Ah, Senhor, eu sei que não ordenas nada que seja impossível, conheces melhor que eu minha fraqueza, minha imperfeição, sabes bem que jamais eu poderia amar minhas irmãs como tu as amas, se tu mesmo, oh meu Jesus, não as amásses também em mim.  É porque queres dar-me essa graça que me deste um novo mandamento.    Oh, como eu amo esse mandamento, pois ele me deu a segurança de que tua vontade é amar em mim todos aqueles que me ordenas amar!...

TERESINHA II  -  Sim, eu sentia quando era caridosa, que era somente Jesus que agia em mim; quanto mais unida a Ele, mais eu amava todas as minhas irmãs.  Quando queria aumentar em mim esse amor, quando sobretudo o demônio tentava colocar diante dos olhos de minha alma os defeitos desta ou daquela irmã que me era menos simpática, apressava-me em procurar suas virtudes, seus bons desejos, dizia para mim mesma que se a vi cair uma vez ela bem podia ter alcançado um grande número de vitórias que ocultava por humildade, e que mesmo o que me parecia uma falta bem podia ser por causa da intenção um ato de virtude.  Não tinha dificuldade em acreditar nisso, pois eu fiz um dia uma pequena experiência que me provou que não se deve julgar.

TERESINHA I -  Durante o recreio, a porteira dá dois toques de sineta; é preciso abrir o portão de serviço para buscar uns arbustos para o presépio; o recreio não está muito animado; eu ficaria muito contente se me mandassem servir de terceira, e a Madre Subpriora me diz para fazer o serviço, ou então a irmã que está ao meu lado, e imediatamente começo a desatar nosso avental, mas bem devagar para que minha companheira tire o seu antes de mim; vou lhe dar o prazer de servir de terceira.  A irmã que faz o papel de depositária olha risonha para nós e vendo que me levanto por último me diz:  Ah, eu sabia que não ganharia essa pérola para sua coroa, foi muito lenta...

TERESINHA II  -  Com certeza toda a comunidade achou que eu agi por natureza e eu não saberia dizer o quanto uma coisa tão pequena me fez bem à alma e me tornou indulgente com as fraquezas dos outros.

TERESINHA I -  Isto me impede de sentir vaidade quando sou julgada favoravelmente pois então digo para mim mesma: Já que tomam meus pequenos atos de virtude por imperfeições, pode muito bem ser que também tomem por virtude o que não passa de imperfeição.  Digo então com São Paulo:  Pouco me importa ser julgado por algum tribunal humano, nem sequer me julgo a mim mesmo.  Quem me julga é o Senhor.  Por isso, para tornar esse julgamento mais favorável para mim, ou antes a fim de não ser julgada de modo algum, quero sempre ter pensamentos caridosos, pois Jesus disse:  Não julgueis e não sereis julgados.

TERESINHA II  -  Na comunidade vivia uma irmã que tinha o talento de me desagradar em todas as coisas, suas maneiras, suas palavras, seu caráter pareciam-me muito desagradáveis, entretanto era uma santa religiosa que devia ser muito agradável ao bom Deus; por isso, não querendo ceder à antipatia natural que experimentava, disse para mim mesma que a caridade não devia consistir em sentimentos, mas nas obras, e então apliquei-me em fazer por essa irmã o mesmo que eu faria para a pessoa que mais amo.

TERESINHA I -  A cada vez que a encontro peço ao bom Deus por ela, oferecendo-Lhe todas as suas virtudes e os seus méritos.  Trato de prestar-lhe todos os obséquios possíveis e quando sinto a tentação de responder-lhe de maneira desagradável, contento-me com oferecer-lhe o meu sorriso mais amável e de desviar a conversa.
   Muitas vezes também, quando tenho alguns contatos de serviço com essa irmã, se meus combates são muito violentos fujo como um desertor.  Como ela ignora absolutamente o que eu sinto por ela, jamais suspeitou os motivos de minha conduta e continua persuadida de que seu caráter me é agradável.  Um dia, no recreio, ela me disse:  "Poderia dizer-me, minha Irmã Teresa do Menino Jesus, o que é que tanto lhe atrai em mim; toda vez que me olha, vejo-a sorrir?"

TERESINHA II  -  Ah, o que me atraía era Jesus escondido no fundo de sua alma...  Jesus que torna doce aquilo que é mais amargo...

TERESINHA I -  Respondi que sorria porque ficava contente em vê-la.

TERESINHA II  -  é claro que não acrescentei que era sob o ponto de vista espiritual.  Lembro de um ato de caridade que o Bom Deus me inspirou a fazer quando ainda era noviça.  Era no tempo que a Irmã São Pedro ainda ia ao coro e ao refeitório.  10 minutos antes das 6 horas, era preciso que uma irmã se desse ao trabalho de conduzi-la até o refeitório, pois as enfermeiras tinham então muitas doentes para que pudessem vir buscá-la.  Muito me custou oferecer-me para fazer esse pequeno serviço, pois eu sabia que não era fácil contentar essa pobre Irmã São Pedro.

TERESINHA I -  Toda tarde, quando vejo minha Irmã São Pedro sacudir sua ampulheta, sei que isto significa: vamos!  É incrível como me custa ficar alerta, mas vou imediatamente e então começa toda uma cerimônia.  É preciso remover e carregar a banqueta de uma certa maneira, e sobretudo não se apressar, e em seguida começa a caminhada; trata-se de seguir a pobre doente sustentando-a pela cintura, o que eu faço com a maior doçura possível; mas se por infelicidade ela dá um passo em falso, logo lhe parece que eu a seguro mal e que vai cair.    "Ah, meu Deus!  Está indo muito rápido, eu vou me desconjuntar."  Se então eu tento ir ainda mais devagar: "Fique atrás de mim, não sinto a sua mão, me soltou, vou cair, ah, bem que eu disse que você era muito jovem para me conduzir."  Enfim chegamos sem acidentes ao refeitório; e agora trata-se de fazer Irmã São Pedro sentar-se com todo o cuidado para não machucá-la, em seguida preciso arregaçar suas mangas (ainda de uma certa maneira) e só depois fico livre para me retirar.

TERESINHA II  -  Logo percebi que quando eu saía, Irmã São Pedro, com suas pobres mãos estropiadas, arrumava o pão na sua tijelinha, do jeito que conseguia.  Então, toda tarde, não a deixava antes de lhe ter prestado esse último serviço.  Como ela não me pedira nada, ficou muito comovida com minha atenção e foi por esse meio que eu não tinha procurado expressamente que conquistei totalmente suas boas graças e sobretudo (soube disso mais tarde) porque depois de ter partido seu pão dirigia-lhe, antes de ir embora, o meu mais belo sorriso.  Mas nem sempre foi com transportes de alegria que pratiquei a caridade.  Durante muito tempo, na oração da tarde, meu lugar ficava na frente de uma irmã que tinha uma estranha mania, e, penso eu...  muitas iluminações, pois raramente servia-se de um livro.

TERESINHA I -  Logo que chega essa irmã, começa a fazer um estranho ruído semelhante ao que se produz friccionando duas conchas uma contra a outra.  Somente eu o percebo, pois tenho um ouvido extremamente apurado.  Dizer o quanto esse pequeno ruído me incomoda é coisa impossível: sinto uma grande vontade de virar a cabeça e olhar para a culpada que, é claro, não nota seu tique, o que seria o único meio de adverti-la; mas no fundo do coração sinto que é melhor sofrer isso pelo amor do bom Deus e para não causar desconforto à irmã.  Fico então quieta, tento unir-me a Deus, esquecer o ruído... tudo em vão, suo por todos os poros e sou obrigada a fazer simplesmente uma oração de sofrimento, mas embora sofrendo, procuro fazê-la sem irritação, com alegria e paz, ao menos no íntimo da alma, então eu trato de amar o ruído tão desagradável; em vez de tentar não ouvi-lo (o que é impossível) ponho minha atenção em ouvi-lo bem, como se fosse um maravilhoso concerto, e toda minha oração (que não é de quietude) limita-se a oferecer esse concerto a Jesus.
   Outro dia estou eu na lavagem de roupa diante de uma irmã que me joga água suja no rosto toda vez que levanta os lenços na tábua de bater; meu primeiro movimento é recuar e enxugar o rosto, para mostrar à irmã que me está me aspergindo que seria um favor se fosse mais delicada na sua tarefa, mas logo penso que sou bem tola em recusar tesouros que me são dados com tanta generosidade e faço todo o possível para não deixar aparecer o meu combate.  Aplico todo meu esforço em desejar receber bastante água suja, de maneira que no fim acabo tomando gosto por esse novo gênero de aspersão e prometo a mim mesma voltar outra vez a esse afortunado lugar onde se recebem tantos tesouros.

TERESINHA II  -  Vejam como eu era uma alma muito pequena que não podia oferecer ao bom Deus senão pequenas coisas, embora muitas vezes me acontecesse deixar escapar esses pequenos sacrifícios que davam tanta paz à minha alma; mas isso não me desanimava, suportava ficar com um pouco menos de paz e tratava de estar mais vigilante na próxima vez.

 

VOZ OFF  -  Imaginemos que nossa alma é como um castelo, feito de um só diamante ou de um puríssimo cristal.  Não posso pensar em nada que seja comparável à beleza de uma alma e à sua imensa capacidade.  Por muito agudas que sejam, as nossas inteligências não chegam a compreendê-la de verdade, assim como não compreendem a Deus.  É ele próprio quem diz que nos criou à sua imagem e semelhança.  Se é assim  e nisso não há a menor dúvida  não nos cansemos tentando descrever a formosura desse castelo.  Entre ele e Deus existe a diferença que vai da criatura ao Criador.  Em suma, é coisa criada.  Mas basta Sua Majestade ter afirmado que a fez à sua imagem para termos uma longínqua idéia da grande dignidade e beleza da alma.  Não é pequena lástima e confusão não nos entendermos a nós mesmos, por nossa culpa, nem sabermos quem somos.  Se perguntássemos a uma pessoa quem ela é, e não soubesse responder, nem dizer que é seu pai, ou sua mãe, ou a terra em que nasceu, seria grande ignorância, coisa mais própria de animal do que de homem.  Bem maior, sem comparação, é a nossa insensatez desconhecendo nosso valor e concentrando toda a atenção no corpo.  Sabemos muito por alto que nossa alma existe, porque ouvimos dizer e a fé nos ensina.  Mas as riquezas que há nessa alma, seu grande valor, quem nela habita  eis o que raras vezes consideramos.  O resultado é que não fazemos caso de sua beleza, nem procuramos com cuidado conservá-la.  Todos os desvelos se consomem no grosseiro engaste, nas muralhas desse castelo, que são nossos corpos.  Esse castelo tem muitos aposentos ou moradas: umas no alto, outras embaixo, outras dos lados.  No centro, no meio de todas, está a principal, onde se passam as coisas mais secretas entre Deus e a alma.

 

TERESINHA I -  Ser tua esposa, oh Jesus, ser carmelita, ser através de minha união contigo a mãe das almas, deveria ser suficiente para mim...  mas não...  Sem dúvida, esses três privilégios são bem minha vocação, Carmelita, Esposa e Mãe, entretanto sinto em mim outras vocações, sinto a vocação de Guerreiro, de Sacerdote, de Apóstolo, de Doutor, de Mártir, enfim, sinto a necessidade, o desejo de fazer por ti, Jesus, todas as obras mais heróicas...  Sinto em minha alma a coragem de um Cruzado, de um Soldado Pontifical, queria morrer em um campo de batalha em defesa da Igreja...

Sinto em mim a vocação de Sacerdote, com que amor, oh Jesus, eu te seguraria em minhas mãos quando, à minha voz, descesses do Céu...  Com que amor eu te ofereceria às almas!...  Mas ai!  Mas também admiro a humildade de São Francisco de Assis e sinto a vocação de imitá-lo recusando a sublime dignidade do Sacerdócio.
   Oh Jesus, meu amor, minha vida...  como aliar esses contrastes?  Como realizar os desejos de minha pobre e pequena alma?
   Ah, eu queria iluminar as almas como os Profetas, os Doutores, tenho a vocação de ser Apóstolo...  Queria percorrer a terra, anunciar o Evangelho nas cinco partes do mundo e até as ilhas mais distantes...  Queria ser missionária não só por alguns anos, mas desde a criação do mundo até a consumação dos séculos...  Mas acima de tudo, oh meu Bem-Amado Salvador, eu queria derramar meu sangue por ti até a última gota...
   O Martírio, este é o sonho de minha juventude, esse sonho cresceu comigo sob os claustros do Carmelo...  Mas nisto também sinto que meu sonho é uma loucura, pois não sei desejar só um gênero de martírio...  Para me satisfazer, seriam precisos todos eles...  Como tu, meu Esposo Adorado, queria ser flagelada e crucificada...  Queria morrer esfolada como São Bartolomeu...  Como São João, queria ser mergulhada no azeite fervendo, queria sofrer todos os suplícios infligidos aos mártires...  Com Santa Inês e Santa Cecília queria oferecer meu pescoço à espada e como Joana d'Arc, minha querida irmã, queria na fogueira murmurar teu nome, oh Jesus...  Ao pensar nos tormentos que serão a herança dos cristãos no tempo do Anticristo, sinto meu coração vibrar e queria que esses tormentos me fossem reservados...  Jesus, Jesus, se eu quisesse escrever todos os meus desejos, precisaria pedir emprestado teu livro da vida, onde estão relatadas todas as ações de todos os Santos e essas ações, eu as queria ter realizado por ti...

TERESINHA II  -  Como na oração meus desejos faziam-me sofrer um verdadeiro martírio abri as epístolas de São Paulo para encontrar alguma resposta.  Os capítulos 12 e 13 da Primeira Epístola aos Coríntios caíram sob os meus olhos...  Li, no primeiro, que nem todos podem ser apóstolos, profetas, doutores, etc..., que a Igreja é composta de diferentes membros e que o olho não poderia ser ao mesmo tempo a mão.
   A resposta era clara mas não satisfazia meus desejos, não me dava a paz...  Sem desanimar continuei minha leitura e esta frase me aliviou:  "Aspirai com ardor os dons mais perfeitos, e mostrar-vos-ei um caminho ainda mais excelente."  E o Apóstolo explica como todos os dons mais perfeitos não são nada sem o Amor...  Que a Caridade é o caminho excelente que conduz seguramente a Deus.  Enfim encontrei meu repouso...  Considerando o corpo místico da Igreja, não me reconhecia em nenhum dos membros descritos por São Paulo, ou antes, queria reconhecer-me em todos...  A Caridade me deu a chave de minha vocação.  Compreendi que se a Igreja tinha um corpo, composto de diferentes membros, o mais necessário, o mais nobre de todos não poderia faltar, compreendi que a Igreja tinha um Coração, e que esse Coração era ardente de Amor.  Compreendi que somente o Amor fazia os membros da Igreja agirem, que se o Amor se extinguisse, os Apóstolos não anunciariam mais o Evangelho, os Mártires se negariam a derramar seu sangue...  Compreendi que o Amor abrangia todas as Vocações, que o Amor era tudo, que ele abarcava todos os tempos e todos os lugares...  em uma palavra que ele é Eterno!...

TERESINHA I -  Oh Jesus meu Amor... enfim encontrei a minha vocação, minha vocação é o Amor!...
   Sim, encontrei meu lugar na Igreja e esse lugar, oh meu Deus, foste tu que me deste...  no Coração da Igreja eu serei o Amor...  assim eu serei tudo...  assim meu sonho se realizará!!!...

TERESINHA II  -  Oh Jesus, eu o sei, o amor só se paga com amor.  Lembrando-me da oração de Eliseu a seu Pai Elias quando ousou pedir-lhe seu espírito em dobro, apresentei-me perante os Anjos e os Santos.

TERESINHA I -  "Eu sou a menor das criaturas, conheço minha miséria e minha fraqueza, mas também sei como os corações nobres e generosos gostam de fazer o bem; portanto eu vos suplico, oh Bem-aventurados habitantes do Céu, eu vos suplico: adotai-me como filha, será somente para vós a glória que me fizerdes adquirir, mas dignai-vos atender minha súplica, ela é temerária, eu o sei, ouso entretanto pedir que me obtenhais vosso Amor em dobro."
   Jesus, não posso levar mais longe o meu pedido.  Minha desculpa é que sou uma criança, as crianças não refletem no alcance de suas palavras, entretanto seus pais, se estão sentados em um trono, se possuem imensos tesouros, não hesitam em satisfazer os desejos dos pequenos seres que amam como a si mesmos.  Ora, eu sou FILHA da Igreja, e a Igreja é Rainha, pois é tua Esposa, oh Divino Rei dos Reis...  Não são as riquezas e a Glória (mesmo a Glória do Céu) que pede o coração da criancinha...  O que ela pede é o Amor...  Ela só quer uma coisa, amar-te, oh Jesus...  As obras esplendorosas lhe são interditas, ela não pode anunciar o Evangelho, derramar seu sangue...  mas que importa, seus irmãos trabalham em seu lugar, e ela, a criancinha, fica bem pertinho do trono do Rei e da Rainha, ela ama por seus irmãos que combatem...  Mas como testemunhará seu Amor, pois que o Amor se prova com as obras?  Ora, a criancinha jogará flores, encherá de perfumes o trono real, cantará com sua voz argentina o cântico do Amor...
   Sim, meu Bem-Amado, eis como se consumirá minha vida...  Não tenho outro meio de provar meu amor senão jogar flores, ou seja, não deixar escapar nenhum pequeno sacrifício, nenhum olhar, nenhuma palavra, aproveitar todas as pequenas coisas e fazê-las por amor...  Quero sofrer por amor e também gozar por amor, e assim lançarei flores diante do teu trono, não encontrarei uma única que eu não desfolhe para ti...
   Oh meu Jesus, eu te amo, amo a Igreja minha Mãe, e recordo que "o menor movimento de puro amor é mais útil para ela do que todas as outras obras juntas."
   Jesus, Jesus, se é tão delicioso o desejo de te Amar, o que não será então possuir, gozar o Amor?...

TERESINHA II  -  Diz o Cântico dos Cânticos:    "Atrai-me, correremos atrás do odor dos teus perfumes."  Disse Jesus: "Ninguém pode vir a mim se meu Pai que me enviou não o atrair."  Depois, Ele nos ensina que basta bater para que abram, procurar para encontrar e estender humildemente a mão para receber o que se pede...  Ele disse ainda que tudo aquilo que se peça a seu Pai em seu nome Ele o concederá.  É por isso sem dúvida que o Espírito Santo, antes do nascimento de Jesus, ditou esta súplica profética:  Atrai-me, correremos.
   Que significa pois o pedido de ser Atraído senão de unir-se de uma maneira íntima ao objeto que cativa o coração?  Se o fogo e o ferro pudessem pensar e o ferro dissesse ao fogo: atrai-me, não provaria que deseja identificar-se com o fogo de tal maneira que este o penetre e o contagie com sua ardente substância a ponto de parecer formar com ele uma só coisa?

TERESINHA I -  Eis minha prece, peço a Jesus que me atraia nas labaredas de seu amor, que eu me una tão estreitamente a Ele que Ele viva e atue em mim.  Sinto que quanto mais o fogo do amor abrasar meu coração, tanto mais eu direi:  Atrai-me, e quanto mais as almas se aproximarem de mim, mais também elas correrão ao odor dos perfumes do seu Bem-Amado, pois uma alma abrasada de amor não pode permanecer inativa, como Santa Madalena, permanecendo aos pés de Jesus, escuta sua palavra doce e inflamada.

TERESINHA II  -  Disse um Sábio:  "Dai-me uma alavanca, um ponto de apoio, e eu levantarei o mundo."  O que Arquimedes não pode obter porque seu pedido não se dirigia a Deus e foi feito somente de um ponto de vista material, os Santos conseguiram em toda sua plenitude.  O Todo-Poderoso deu-lhes um ponto de apoio:  Ele mesmo, e somente Ele.  E uma alavanca: a oração, que abrasa com um fogo de amor, e é assim que elevaram o mundo, é assim que os Santos ainda militantes o elevam e que até o fim do mundo os Santos vindouros também o elevarão.

TERESINHA I -  Agora eu gostaria de dizer o que eu entendo pelo odor dos perfumes do Bem-Amado.    Já que Jesus subiu ao Céu, não posso segui-lo senão pelos vestígios que deixou, mas como esses vestígios são luminosos, como são recendentes!  É só lançar os olhos sobre o Santo Evangelho, e logo sinto os perfumes da vida de Jesus e sei para que lado correr...  Não é para o primeiro lugar, mas para o último que me dirijo, em vez de adiantar-me como o fariseu, eu repito, cheia de confiança, a humilde prece do publicano, mas sobretudo imito a conduta de Madalena, sua espantosa ou antes sua amorosa audácia que encanta o Coração de Jesus, seduz o meu.  Sim, eu o sinto, mesmo que me pesassem na consciência todos os pecados que se possam cometer, eu iria, com o coração partido de arrependimento, jogar-me nos braços de Jesus, pois sei o quanto Ele ama o filho pródigo que volta para Ele, eu ouvi suas palavras a Santa Madalena, à mulher adúltera, à samaritana.  Não, ninguém poderia amedrontar-me, pois eu sei como lidar com seu amor e com sua misericórdia.  Sei que toda essa multidão de ofensas desapareceria em um piscar de olhos, como uma gota d'água em um braseiro ardente.

TERESINHA II  -  Conta-se na Vida dos Padres do deserto, que um deles converteu uma pecadora pública cujos desmandos escandalizavam toda a redondeza.  Essa pecadora, tocada pela graça, seguia o santo ao deserto para cumprir uma rigorosa penitência, quando, na primeira noite da viagem, antes mesmo de ter chegado ao lugar de sua reclusão, seus laços mortais foram rompidos pela impetuosidade de seu arrependimento cheio de amor: e o eremita viu no mesmo instante sua alma ser levada pelos Anjos para o seio de Deus.
   Eis um exemplo bem claro do que eu queria dizer, mas essas coisas não podem ser exprimidas...

TERESINHA I -  Não é porque o bom Deus, em sua previdente misericórdia, preservou minha alma do pecado mortal que me elevo até Ele pela confiança e pelo amor.

TERESINHA II  -  Oh Jesus, pena que eu não possa dizer a todas as pequenas almas como tua condescendência é inefável...  sinto que se por absurdo tu encontrasses uma alma mais fraca, menor que a minha, terias prazer em cobri-la de favores ainda maiores, se ela se abandonasse com uma inteira confiança a tua misericórdia infinita.  Mas por que desejar comunicar teus segredos de amor, oh Jesus, não foi somente tu que os ensinaste a mim e não podes revelá-los aos outros?...  Sim, eu o sei, e te peço que o faças, suplico-te que abaixes teu divino olhar sobre um grande número de pequenas almas...  Suplico-te que escolhas uma legião de pequenas hóstias dignas de teu AMOR!...

VOZ OFF  -  Bendito seja o Deu e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, em sua grande misericórdia, nos gerou de novo, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma esperança viva, para uma herança incorruptível, imaculada e imarcescível, reservada nos céus para vós, os que, mediante a fé, fostes guardados pelo poder de Deus para a salvação que está preparada para se manifestar no último tempo.
   Pela obediência à verdade purificastes as vossas almas para praticardes um amor fraterno sem hipocrisia.  Amai-vos intensamente uns aos outros e de todo o coração.  Fostes regenerados, não de uma semente corruptível, mas incorruptível, pela Palavra do Deus vivo, que permanece eternamente.  Com efeito,

"toda a carne é como erva
e toda a sua glória como a flor da erva.
Secou-se a erva e a sua flor caiu;
mas a palavra do Senhor permanece eternamente."
Ora, é esta a Palavra que vos foi anunciada pelo Evangelho.

   Portanto, rejeitando toda maldade, toda mentira, todas as formas de hipocrisia e de inveja e toda maledicência, desejai, como crianças recém-nascidas, o leite não adulterado da palavra, a fim de que por ele cresçais para a salvação, já que provastes como é doce o Senhor.
   Lembrai-vos do que disse o Senhor a Moisés: "Sede santos, porque eu, vosso Deus, sou Santo."

 

F I M

 

© 1998 by Roberto Mallet

 

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