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Profissão de fé

Tadeusz Kantor

 


Alocução pronunciada por Tadeusz Kantor perante o Júri internacional quando lhe foi outorgado o Prêmio Rembrandt da Fundação Goethe.
 

Permiti-me, Supremos Juízes
apresentar-vos meu credo solene,
meu desafio e minha provocação.  Permito-me
recordar-vos que o método fundamental (se posso
exprimir-me de maneira tão patética) de meu trabalho é e era
a fascinação pela realidade que denominei REALIDADE DO
NÍVEL MAIS BAIXO.  É ela que explica meus quadros,
minhas Embalagens, meus Objetos Pobres e também meus Personagens
Pobres,
os quais como vários filhos pródigos, retornam na
miséria a suas casas natais.
Gostaria afinal de aplicar esse método a mim mesmo:
Não é verdade
que o homem moderno
é um espírito que tenha vencido
o MEDO...
não é verdade...
o MEDO existe:
o medo diante do mundo exterior,
o medo diante de nosso destino,
diante da morte,
diante do desconhecido,
o medo diante do nada,
diante do vazio...

Não é verdade
que o artista é um herói
ou um conquistador audacioso e intrépido
como o quer uma LENDA convencional...
Acreditai em mim
é um HOMEM POBRE
sem armas e sem defesa
que escolheu seu LUGAR
face a face com o MEDO.
Em toda consciência!
É na consciência
que nasce o MEDO!

Eu estou de pé
diante de vós
JUÍZES SEVEROS MAS JUSTOS
eu estou de pé
acusado
e esmagado em meu MEDO...
E há uma diferença entre os antigos dadaístas dos quais me sinto o descendente e eu:
Levantai-vos
gritava Picabia
O GRANDE ZOMBADOR
vós sois acusados!
E eis minha correção hoje
a essa invocação outrora imponente:
Sou eu quem é julgado e acusado
eu estou de pé diante de vós
e necessito procurar
razões e provas
não o sei
de minha inocência
ou de minha culpabilidade...
Estou de pé,
como outrora, como no passado,
na escola, em minha classe...
e digo:
eu  e s q u e c i
eu sabia, eu sabia
asseguro-vos, Senhoras e Senhores...

 

In "Le Théâtre de la Mort", textos de Tadeusz Kantor reunidos e apresentados por Denis Bablet, ed. L'Age d'Homme, Lausanne, 1977, pág. 275. Tradução de Roberto Mallet.

 

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