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Sobre o ator e sobre o teatro

Nelson Rodrigues

 


A verdadeira vocação dramática não é o grande ator ou a grande atriz.  É, ao contrário, o canastrão, e quanto mais límpido, líquido, ululante, melhor.  O grande ator ou atriz é recente.  Até poucos anos atrás, representava-se cinema e teatro aos uivos e às patadas.  Era hediondo e sublime.  Ao passo que o grande ator nada tem de truculento nem berra.  É inteligente demais, consciente demais, técnico demais; e tem uma lucidez crítica, que o exaure.  O canastrão, não.  Está em cena como um búfalo da ilha de Marajó.  É capaz de tudo.  Sobe pelas paredes, pendura-se no lustre e, se duvidarem, é capaz de comer o cenário.  Por isso mesmo, chega mais depressa ao coração do povo, deslumbra e fanatiza a platéia. (1)

  Três anos depois [do assassinato de Roberto Rodrigues, irmão de Nelson], descobri o teatro.  Fui ver, com uns outros, um vaudeville.  Durante os três atos, houve, ali, uma loucura de gargalhadas.  Só um espectador não ria: - eu.  Depois da morte de Roberto, aprendera a quase não rir; o meu próprio riso me feria e envergonhava.  E, no teatro, para não rir, eu comecei a pensar em Roberto e na nudez violada da autópsia.  Mas, no segundo ato, eu já achava que ninguém deve rir no teatro.  Liguei as duas coisas: - teatro e martírio, teatro e desespero.  No terceiro ato, ou no intervalo do segundo para o último, eu imaginei uma igreja.  De repente, em tal igreja, o padre começa a engolir espadas, os coroinhas a plantar bananeiras, os santos a equilibrar laranjas no nariz como focas amestradas.  Ao sair do vaudeville, eu levava comigo todo um projeto dramático definitivo.  Acabava de tocar o mistério profundíssimo do teatro.  Eis a verdade súbita que eu descobrira: - a peça para rir, com essa destinação específica, é tão obscena e idiota como o seria uma missa cômica. (2)

  [Trecho escrito para a apresentação da peça Perdoa-me por me traíres]  Morbidez?  Sensacionalismo?  Não.  E explico: a ficção, para ser purificadora, precisa ser atroz.  O personagem é vil, para que não o sejamos.  Ele realiza a miséria inconfessa de cada um de nós.  A partir do momento em que Ana Karenina, ou Bovary, trai, muitas senhoras da vida real deixarão de fazê-lo.  No "Crime e Castigo", Raskolnikov mata uma velha e, no mesmo instante, o ódio social que fermenta em nós estará diminuído, aplacado.  Ele matou por todos.  E, no teatro, que é mais plástico, direto, e de um impacto tão mais puro, esse fenômeno de transferência torna-se mais válido.  Para salvar a platéia, é preciso encher o palco de assassinos, de adúlteros, de insanos e, em suma, de uma rajada de monstros.  São os nossos monstros, dos quais eventualmente nos libertamos, para depois recriá-los. (3)


(1) Rodrigues, Nelson.  A Menina sem estrela.  São Paulo, Companhia das Letras, 1993, pág. 63. [volta]

(2) Idem, ibidem, págs. 95-96. [volta]

(3) Castro, Ruy.  O Anjo Pornográfico.  São Paulo, Companhia das Letras, 1992, pág. 273. [volta]

 

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