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O espectador isolante

Louis Jouvet


 

 
Na imensa maioria dos casos as pessoas avaliam um espetáculo como se ele fosse um acontecimento isolado, fechado em si mesmo. Pode acontecer entretanto que um espetáculo não aconteça plenamente em determinada sessão por uma causa que se encontra na platéia: o espectador isolante. É claro que o público não especializado não precisa — e nem pode — levar isto em conta. Já os críticos, os eruditos e os próprios artistas deveriam ao menos saber que o caso é possível — e cada um de nós deveria averiguar sinceramente se não é uma espécime do gênero. Reproduzo abaixo um comentário de Jouvet sobre o fenômeno.

Roberto Mallet


 
Eis um fato bem conhecido das pessoas de teatro: por que a presença de certo espectador na platéia cria uma irredutível resistência à representação da peça?

—  O que é que está acontecendo hoje? E subitamente um de nós diz: "Fulano está na platéia." Tudo se explica, é ele que impede que os efeitos aconteçam.

Esse gênero de espectadores, dos quais eu poderia citar nomes [eu também, meu caro Jouvet, eu também], é isolante (non-conducteur) e impede o fenômeno de fusão ou de cristalização, como em um crisol a má terra de um mineral, ou no cristalizador do alquimista a impureza de uma solução.

 
 

In Louis Jouvet, Réflexions du comédien, Americ = Edit., Rio de Janeiro, s/data, pág. 161-2. Tradução de Roberto Mallet.

 

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