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Reflexões inúteis
sobre escritores inúteis

 
Gustavo Corção

 


As obras escritas, em todos os muitos gêneros, são em grande parte meros acidentes, ondas fortuitas, que não chegam a ficar incorporadas, realmente incorporadas, nessa pirâmide das grandes ofertas que o homem faz ao homem.  Se não tiram, também não acrescentam.  Formam depósitos secundários de que vivem os livreiros e as traças.  Funcionam como os assuntos do dia, escândalos ou banquetes, não chegando a ser propriamente obras, mas acontecimentos.  Entram no calendário, nos salões, nas colunas da crítica e muitas vezes nas academias, mas não aderem ao compacto e concreto mundo da verdade.  Têm a natureza dos passos de dança de que nem o chão guarda memória, ou a semelhança do palito que só entretém um breve e subalterno contato com o alimento.

Há escritores (ai de nós!) cujo maior título é uma pontualidade ou uma atitude: estar escrevendo.  Vivem num particípio presente que não participa de um presente.  Estão na literatura como os generais na ativa.  Reformados, vai-se-lhes o prestígio; mortos, fica um registro nos almanaques e outro na sepultura.  Há no mundo dois mundos, um de pedra e outro de neblina: geologia e meteorologia.  Na literatura há também montanhas e brisas.  Os livros que encontramos são, na maior parte, como as corrente de ar; e sua leitura tem a brevidade e o enfado de uma gripe.  Leu-se; sofreu-se; acabou-se.

 

O falso e o genuíno

Esta divisão um pouco sumária, e talvez cândida demais, entre bons e maus livros, deve ser esclarecida e subordinada a um critério para que o leitor não a interprete mal.  Antes de mais nada afasto qualquer idéia moralista, depois ponho também de lado o nível literário, isto é, a aristocrática demarcação entre as obras requintadas e as mais rústicas e populares.

Quando falo em livros que pesam, e me lamento dos que não pesam, quero me referir a uma distinção mais delicada  ou talvez mais brutal  do que aquela que geralmente se estabelece entre um bom e um mau bife, entre o casaco bem feito e um outro de mau pano ou defeituosa costura.  Essas serão, na acepção aqui adotada, avaliações puramente adjetivas.  Têm incontestável importância, sem dúvida, e cada dia maior, porque um dos aspectos mais tristes da política moderna ou das mais recentes concepções de vida é certamente a degradação geral das qualidades.  A distinção que investigo, entretanto, é mais interior à natureza das coisas.  Um mau bife ainda é um bife; um mau casaco ainda veste.

Será então a verdade, ou a exatidão, do conteúdo de um livro o critério que estou buscando?  (...)

Ouso dizer que não é isso.  Um livro pode ser grande e digno de interesse mesmo quando escrito contra a verdade.  Estarei mais próximo, mais quente, se disser que o primeiro divisor das obras humanas, de onde se tira a condição primeira e eliminatória, não é tanto a verdade nelas contida, mas a sua ligação com a verdade.  Com amor ou com ódio, acerto ou desacerto, o primeiro traço fisionômico de uma obra humana deve ser a sua humanidade.  Deve ser a conexão vital e real com as coisas do homem, sua invencível tendência, colérica ou cordial, para tudo que nos toque na carne e no sangue.  Esse é o sinal que umas obras possuem e outras não.  Sinal de participação na concórdia ou no combate; notícia boa ou má (a ser averiguada logo depois), verdadeira ou falsa (a ser cuidadosamente examinada); mas notícia que me faça pensar: "Isto é comigo."

(...) Para dar mais nitidez à distinção pesquisada, direi que há duas grandes classes de autores separadas por um abismo: os genuínos (melhores ou piores) e os falsificados.  Os primeiros andam na grande linha que liga as origens aos destinos do homem, para acertar ou errar, para blasfemar ou louvar; andam no encalço de uma pista, curvados, com paciência ou em delírio, atentos às inúmeras e perturbadoras marcas deixadas pelos pés humanos.  Os outros são imitadores de gestos, índios de opereta, e pouco lhes importa que exista uma tribo amiga ou que estejam acampados, além, numa clareira escondida, os sanguinários inimigos.

O primeiro sinal que um leitor prevenido deve procurar num livro, a meu ver, é o da autenticidade.  Antes de qualquer avaliação final, antes de uma colocação mais firme, importa distinguir se a obra vem das profundezas de um sujeito ou das meras superfícies, que apenas espelham os gestos dos outros.  O que importa, na voz de um livro, é que seja uma voz de homem, que as palavras dessa voz estejam ligadas à lenda desse rei que cada esfinge de esquina tenta devorar.

 

In "Três Alqueires e uma Vaca", Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1961, pág. 14-19.

 

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