Grupo Tempo - Página de Abertura
Um Psiquiatra Vê a Literatura Moderna (1)

Viktor Frankl


 

Quando fui convidado a falar para este congresso, de começo fiquei hesitante.  São tantos os representantes da literatura moderna que se intrometem no campo da psiquiatria - certo, mais exatamente de um tipo de psiquiatria obsoleta - que eu senti receio de começar a ser um psiquiatra a intrometer-se no campo da literatura moderna.  E o que é mais importante, isso não sem perguntar-me se a psiquiatria tem qualquer coisa para dizer sobre a literatura moderna.  Também não é verdade que a psiquiatria tenha as respostas.  Ainda hoje nós psiquiatras não sabemos, por exemplo, qual é a causa real da esquizofrenia.  Ainda menos sabemos como curá-la.  Como com freqüência digo, nós não somos nem oniscientes nem onipotentes; o único atributo divino que podem atribuir-nos é a onipresença - os senhores encontram-nos em qualquer painel ou simpósio, até em seu congresso...
Penso que devemos parar de divinizar a psiquiatria - e começar a humanizá-la.  Para começar, devemos aprender a diferenciar entre o que é humano no homem e o que é patológico - em outros termos, entre o que é enfermidade mental ou emocional, por um lado, e, por outro, o que é, por exemplo, desespero existencial, desespero diante da aparente falta de sentido para a existência humana - sem dúvida, um tema preferencial da literatura moderna, não é?  Sigmund Freud, é verdade, escreveu uma vez que "no momento em que alguém pergunta sobre o sentido ou o valor da existência, está doente"; mas eu penso que é nesse momento que o indivíduo manifesta sua humanidade.  É um empreendimento humano o interrogar sobre um sentido para a vida, e cabe perguntar se tal sentido é alcançável ou não.

Mesmo se em um dado caso concluímos que um autor é realmente doente, não simplesmente neurótico mas psicótico, isto significaria necessariamente que sua obra é falsa ou sem valor?  Não penso assim.  Que dois e dois são quatro continua sendo verdade, mesmo quando quem o disse é um esquizofrênico.  Creio que não é possível depreciar a poesia de Hoelderlin ou a verdade da filosofia de Nietzsche porque o primeiro sofria uma esquizofrenia e o último uma paralisia geral.  Estou seguro que Hoelderlin e Nietzsche continuam sendo lidos e seus nomes reverenciados, enquanto os nomes daqueles psiquiatras que encheram volumes com as psicoses dos dois "casos" estão há muito esquecidos.

A presença de patologia não diz nada contra a obra do escritor.  Como também não diz nada em favor.  Nenhum escritor psicótico jamais criou uma obra importante porque era psicótico, mas apesar disso.  A doença per se nunca é criativa.

Nos tempos atuais é moda ver a literatura moderna do ponto de vista do psiquiatra, e em particular considerá-la um produto de dinamismos inconscientes.  Conseqüentemente, a assim chamada psicologia do profundo começou a ter como sua principal tarefa o desmascaramento das motivações secretas que estão por baixo da produção literária.  Para mostrar-lhes o que acontece quando alguém coloca um escritor naquilo que eu gosto de chamar de "leito de Procusto", permitam-me citar uma crítica publicada em Journal of Existencialism, sobre dois volumes de um famoso freudiano dedicados a Goethe: "Em 1.538 páginas, o autor retrata um gênio com as marcas do maníaco-depressivo, paranóide, e epileptóide, com os traços de homossexualidade, incesto, voyeurismo, exibicionismo, fetichismo, impotência, narcisismo, neurose obsessivo-compulsiva, histeria, megalomania, etc.  O autor parece focalizar exclusivamente as forças do dinamismo instintivo que alicerçam o produto artístico.  Somos assim induzidos a acreditar que a obra de Goethe é o resultado de fixações pré-genitais.  Seu esforço não era realmente dirigido para um ideal, para a beleza e valores, mas para a superação de um embaraçoso problema de ejaculação precoce (2).

Eu penso que o desmascaramento deve parar imediatamente, tão logo o psicólogo desmascarador se defronte com algo de genuíno.  Se não se detiver aí, o que ele acaba desmascarando é sua motivação inconsciente para diminuir a grandeza interior do homem.

É admirável que o ofício de desmascarar e de desiludir tenha tanto atrativo para o leitor.  Parece um consolo vir a saber que Goethe também não era senão um neurótico, principalmente que era um neurótico como você ou como eu ou qualquer outro neurótico (e quem não for neurótico atire a primeira pedra).  Aproveitando, é também agradável ouvir que o homem não é nada mais que um "macaco nu", o campo de jogo do id, do ego e do superego, a peça de jogo manejada pelos impulsos e instintos, o produto de processos de condicionamento e aprendizagem, a vítima das circunstâncias sócio-econômicas, tendências inatas e complexos.

Como Brian Goodwin uma vez observou tão corretamente, "É bom para as pessoas saber que não são senão isso ou aquilo, pois acreditam que os bons remédios devem ser amargos" (3).  Parece-me que em última análise as pessoas, para as quais desiludir-se é tão interessante, experimentam um prazer masoquista no "apenas isso..." que é proclamado pelo reducionismo.

Voltando ao desiludir na moderna literatura, tanto se as raízes da produção literária forem normais ou anormais, como se elas forem conscientes ou inconscientes, permanece o fato que o escrever é tido como um ato de auto-expressão.  Sou de parecer que o escrever segue ao falar, e o falar, por sua vez, segue ao pensar; e não há pensamento sem alguma coisa de reflexão e imaginação.  Vale o mesmo para a escrita e para a fala, visto que as duas estão ligadas ao significado que comunicam.  Se não contiver uma mensagem, a linguagem não é linguagem.  Simplesmente não é verdade que "o meio é a mensagem".  Ao contrário, penso que é somente a mensagem que transforma o meio em verdadeiro meio.

A linguagem é mais que mera auto-expressão (4).  A linguagem está sempre apontando para algo além dela.  Em outras palavras, é sempre autotranscendente - como a existência humana em sua totalidade.  O ser humano está sempre dirigido para alguma coisa ou para alguém, além de si mesmo, a fim de preenchê-lo de sentido, ou para outro ser humano a fim de ir a seu encontro.  Como o olho saudável, que não se vê a si mesmo, o homem, também, funciona melhor quando passa por alto e esquece a si mesmo, entregando-se.  Esquecendo a si mesmo desenvolve a sensibilidade, entregando-se amplia a criatividade.

Em virtude da autotranscendência da existência humana o homem é um ser em busca de sentido.  Ele é dominado pela vontade de sentido.  Hoje, contudo, a vontade de sentido está frustrada.  Cada vez mais os pacientes voltam a nós psiquiatras queixando-se de sentimentos de falta de sentido e de vazio, de uma sensação de futilidade e de absurdo.  São vítimas da neurose de massa de hoje.

Esse sentimento de falta de sentido tem algo a ver com o tema geral deste congresso.  Três décadas de paz relativa tornaram o homem capaz de pensar para além da luta pela sobrevivência.  Agora nós perguntamos qual o derradeiro sentido depois da sobrevivência - mas existe algum?  Nas palavras de Ernst Bloch "Hoje aos homens é concedido confrontar-se com as realidades que antes confrontavam só no leito de morte".

Fenômenos de dimensões mundiais tais como a violência e as drogas, ou as taxas impressionantes de suicídio, particularmente entre a juventude universitária, são alguns sintomas desses sentimentos; mas também uma parte da literatura moderna é um sintoma.  Enquanto a moderna literatura se limitar a conter apenas a si mesma e se contentar com a expressão de si - para não dizer, a auto-exibição - ela refletirá o senso de futilidade e de absurdo de seus autores.  E, o que é mais importante, isso cria o absurdo, o que é compreensível à luz do fato que o sentido deve ser descoberto, não pode ser inventado.  O sentido não pode ser criado; o que pode ser criado é o contra-senso.

Não é de admirar que um escritor, tomado pelo sentimento de ausência de sentido, seja tentado a preencher o vazio com o contra-senso e o absurdo.

Contudo existe outra opção.  A literatura moderna não deve continuar sendo outro sintoma da neurose de massa atual.  Ela pode muito bem contribuir para a terapia.  Escritores que passaram pelo inferno do desespero por causa da aparente falta de sentido da vida podem oferecer seus sofrimentos como um sacrifício na altar da humanidade.  Sua auto-revelação pode ajudar o leitor que estiver atingido pela mesma condição, ajudá-lo a superá-la.

O menor serviço que o escritor pode prestar ao leitor deveria ser o despertar do senso de solidariedade.  Nesse caso, o sintoma passaria a ser a terapia.  Todavia, se a literatura moderna deve assumir esse papel terapêutico - em outros termos, se ela deve dinamizar seu pontencial terapêutico - deve abster-se de transformar o niilismo em cinismo.

Por mais que se justifique que o escritor possa partilhar com o leitor seu senso de futilidade, é um cinismo irresponsável proclamar o absurdo da existência.  Se o escritor não for capaz de imunizar o leitor contra o desespero, deveria ao menos abster-se de inoculá-lo.

Amanhã terei a honra de fazer o discurso de abertura da Feira Austríaca do Livro.  O título que escolhi é "O Livro como Terapia".  Em outras palavras, eu falarei sobre a cura através da leitura.  Comunicarei ao meu auditório casos em que um livro mudou a vida do leitor, e outros casos em que um livro lhe salvou a vida, impedindo-o de cometer suicídio.  Incluirei o caso de Aaron Mitchell, a última vítima da câmara de gás da prisão de San Quentin, perto de San Francisco.  Eu fui falar aos prisioneiros a convite do diretor do presídio.  Quando terminei, alguém levantou-se e me perguntou se eu poderia dizer algumas palavras a Aaron Mitchell, que deveria ser executado dentro de poucos dias.  Era um desafio que eu deveria aceitar.  Falei então a Mr. Mitchell sobre minha própria experiência nos campos de concentração nazistas, quando eu também tinha de viver à sombra da câmara de gás.  Mesmo então, disse-lhe eu, não abandonei minha convicção sobre a incondicional plenitude de sentido da vida, porque ou a vida tem um sentido - e então ela conserva esse sentido mesmo que tenhamos de viver poucos momentos - ou a vida não tem sentido, e nesse caso não valeria nada acrescentar muitos anos e prolongar assim uma situação vazia de sentido.
"E pode crer, disse-lhe eu, mesmo uma vida que tenha sido sempre vazia de sentido, isto é, uma vida que tenha sido desperdiçada, pode - mesmo no último momento - ganhar sentido pelo modo como nós enfrentamos tal situação."  Para dar um exemplo, contei-lhe a história relatada na novela
"A morte de Ivan Ilyich", de Leon Tolstoy - que com certeza os senhores se recordam - a história de um homem que aos sessenta anos veio a saber que deveria morrer dentro de dois dias.  Mas por uma intuição ele percebe, não apenas ao confrontar a morte, mas ao dar-se conta que havia desperdiçado a vida, que sua existência fora praticamente sem sentido - por esta intuição ele se eleva acima de si mesmo, cresce para além de si e assim finalmente é capaz de retroativamente encher a própria vida com um sentido infinito.

Pouco antes da execução Aaron Mitchell deu uma entrevista, publicada no Chronicle de San Francisco, na qual não deixou dúvida que a mensagem de Tolstoy o havia atingido.

Daí podem os senhores concluir quanto o homem da rua pode ser beneficiado por um autor, mesmo numa situação extrema de vida, para não falar numa situação de morte.  Podem ver também até onde chega a responsabilidade social do autor.  É verdade, devem ser garantidas a liberdade de opinião do autor e sua expressão, mas liberdade não é a última palavra, não é a história toda.  Liberdade ameaça degenerar em arbitrariedade se não for contrabalanceada pela responsabilidade.


 

Notas
 

(1) Palavras pronunciadas como convidado de honra do Congresso do International P.E.N., no Hilton Hotel de Viena, dia 18 de novembro de 1975.  [volta]

(2) Journal of Existencialism 5, 1964, pág. 229.  [volta]

(3) "Science and Alchemy", em The Rules of de Game: Cross-disciplinary Essays on Models in Scholarly Thought.  Ed. Theodor Shanin, London, Tavistock Publications, 1972, pág. 375.  [volta]

(4) Com a exceção única da linguagem esquizofrênica.  Há alguns anos, demonstrei experimentalmente que a linguagem dos esquizofrênicos não mais se dirige a um objeto, mas simplesmente expressa o estado de ânimo do sujeito.  [volta]

 

In "Um Sentido para a Vida", tradução de Viktor Hugo Silveira Lapenta, Editora Santuário, Aparecida, 1989, pág. 79-84.
 

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