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Étienne Decroux

 

I
 

FONTES

 
... tem sua fonte
no Vieux-Colombier
 

 

O Vieux-Colombier [Velho Pombal] se tornou lenda.

Entre aqueles que conhecem a história desse teatro, muitos não sabem o que foi a sua escola.

Situada no flanco do teatro, ela estava instalada num barracão Adrian lavado com sabão todos os dias.

Quantas coisas para dizer sobre ela!

Eu gostaria de contar tudo.

E sobretudo:

O papel de Suzanne Bing, nosso temido chefe.

Fanaticamente à altura da sua tarefa, na qual ela esquecia de si mesma.

Como a gente a esquece.

Já que a direção de uma escola dramática digna desse nome implica um ser excepcional, é incontestável: na sua falta, outra pessoa teria tomado o seu lugar.

Sem ela, a escola teria permanecido um projeto ou se tornado como as outras:. uma casa da Mãe Joana (1).

Uma experiência pesada, relativa às escolas e desenvolvida já faz dezesseis anos, me autoriza a dizer, sem ser acusado de ceder ao prazer da euforia:

Sem Suzanne Bing, não haveria ninguém.

Nesta hipótese, Copeau se entregaria ao seu teatro - incêndio perpétuo que a gente se consome apagando - e a escola não teria nascido.

Pelo menos, não aquela.

Assim, tudo o que tem sua fonte naquele barracão austero e maravilhoso também não teria vindo ao mundo.

Nele eram dados os seguintes cursos aos futuros atores: acrobacia no solo, atletismo em estádio, ginástica comum, dança clássica, mimo corporal, colocação de voz, dicção comum, declamação do coro antigo e do nô japonês, canto, modelagem.

História da música, do traje, da filosofia, da literatura, do verso, do teatro, etc.

Outras escolas têm um programa parecido com esse.

Mas se, por volta das cinco horas, a rua ficar preta de carros estacionados, podem ter certeza de que é hoje a aula do diretor.

Nossas " damas " não freqüentam outros.

Elas fazem mimo com saltos Luís XV e com roupa de ir tomar chá.

Por que isso?

Como é que elas podem pensar que o mimo é praticável com um traje desses e sem um estudo preliminar da dança clássica, que, aliás, a escola delas põe à sua disposição?

Respondamos por elas:

Primeiro, contando que serão notadas pelo patrão naquele dia, elas aceitam o mimo tendo em vista o teatro mundano e este tendo em vista o cinema, e o cinema tendo em vista degustar o prazer alcoolizado da dispersão.

No melhor dos casos, elas esperam que o grande chefe lhes infundirá a ciência em forma de coquetel.

Pois elas querem escalar deslizando.

Por isso elas freqüentam só o curso - eu ia dizer a corte - do patrão.

Podemos adivinhar como essas presenças são perniciosas. Todo o mundo concorda com isso, mas... elas pagam.

Não imagino Copeau suportando essas criaturas. Se lhe houvessem provado que o dinheiro dessas damas era indispensável para a vida da escola, ele a teria fechado.

Nós freqüentávamos obrigatoriamente todos os cursos.

Na verdade, nem sequer imaginávamos que pudessem ser facultativos.

E ainda mais! Durante o meu primeiro ano, Jacques Copeau não deu nenhuma aula.

Era aos professores, penso eu, que ele as dava. Por onde andarão nossas " damas " que só podiam aprender o alfabeto com o secretário da Academia, os exercícios na barra, o piano, a adição, só com Nijinsky, Paderewski e Henri Poincaré?

Aliás, não faltavam celebridades, mas isso não levava ao cinema.

Mlle Lamballe, da Ópera, os Fratellini, Jules Romains, o compositor Louis Latzarus, o estatuário Marc.

Ora a roupa dos alunos era a do corredor a pé, ora a do escultor.

Não se assustem! Nessa juventude, havia pequenos dramas de amor, flertes também; mas o trabalho caía por cima dessas histórias como o ar fresco por cima do ar quente.

Não esqueço que fiz o trabalho mais eficaz com artistas sem grande renome na época: Georges Vitray para a dicção, Georges Chennevière para a instrução geral, Garcia Mansilla para a colocação de voz, Jean Dorcy e Mlle Copeau para a arte corporal em geral.

Esta, hoje conhecida pelo nome de Marie-Hélène Dasté, era uma mocinha que tuteávamos e que chamávamos de Maïène (contração de Marie-Hélène).

Participando de nossas escapadas com o seu sorriso cúmplice, nem por isso ela deixava de ser nossa corrente sob a forma de uma planta trepadeira extensível e florida.

Na autoridade de Copeau havia teocracia; na de Suzanne Bing, ascetismo.

Isso poderia ter-nos tornado sombrios.

Graças a Maïène, que herdara da mãe os três quartos de seu sorriso, isso não aconteceu.

Que trindade feliz!

Entre o teatro e a escola, sabíamos que esta última era a preferida de Copeau.

O que não deixava de criar uma rivalidade polida e oficiosa entre alunos e atores.

O patrão, mais exigente que o seu público, julgava seus espetáculos em função de sua finalidade, não do sucesso.

Um orçamento teatral e o serviço da Idéia possuem exigências às vezes divergentes.

O desenlace ocorreu em junho de 1924: ele fechou o seu teatro e levou a sua escola para a Borgonha a fim de aquartelar as suas tropas lá.

Parece-me que essa decisão foi uma revolta contra a mecânica social: " Se a gestão de um teatro dependente, apesar de tudo, do passado por causa dos seus atores formados em outra escola, e por causa dos seus autores que compuseram a peça deles sem saber antecipadamente a quem eles a apresentariam; se - permitam que eu faça este trocadilho - a gestão impede a gestação, abandonaremos o presente, mas não o futuro ".

Aí está o que talvez ele tenha pensado, pois uma característica do patrão era a fome de absoluto. De resto, ele não admitia ser o joguete resignado de um determinismo qualquer.

Vivemos bons momentos na Borgonha e penso que o fracasso foi evitável.

Mas, como os micróbios triunfam no instante breve de nossa deficiência, as dificuldades da vida comum em determinado momento venceram.

Essas dissensões sempre foram dignas.

Depois, houve a procriação pela divisão em seções.

Copeau nos tinha iluminado tão bem que aqueles dentre nós que o deixaram levaram fogo junto com eles.

Querendo recriar o seu próprio Vieux-Colombier, cada um foi capaz de ver o quanto custa fazer isso, mesmo sem conseguir.

Vimos a Compagnie des Quinze [Companhia dos Quinze] com Saint-Denis, os Comédiens Routiers [Atores da Estrada] com Chancerel, os duetistas Gille e Julien, meu grupo Une graine [Uma Semente], o Proscenium [Proscênio] com Dorcy. Os dois últimos no plano amador da propaganda socialista.

Daí provém essa proliferação do mimo e do coro falado nas manifestações populares.

Jean-Louis Barrault, muito bem cotado, não deve nada para esse movimento enquanto ator de cinema.

Mas como homem de teatro, ele é neto da nossa escola.

As " Quatre Saisons " [Quatro Estações], teatro dirigido por André Barsacq, foi também neto da nossa escola. Esse jovem teatro todo, a verdadeira vanguarda, o novo cartel... tem sua fonte no Vieux-Colombier (seção escola).

Quando tiver conquistado a sua maturidade, o seu classicismo; quando, portanto, tiver escapado das críticas devidas à sua fase de experiência - pois esta arte é difícil -convirá festejar suntuosamente o aniversário de fundação dessa escola.

Cada companhia teatral apresentará o melhor trecho do seu repertório, Gille e Julien reconstituirão o número deles especialmente, e todos prestarão aos pioneiros do barracão Adrian a justa homenagem que lhes é devida.

 

 

O MIMO CORPORAL
NO VIEUX-COLOMBIER
(ÉCOLE)

 

Chamávamos isso de máscara.

Ao contrário das máscaras chinesas, a nossa era inexpressiva.

O corpo ficava tão nu quanto a decência o permitia.

Medida indispensável. Porque, anulado o rosto, todos os membros do corpo não eram suficientes para substituí-lo.

Mimávamos ações modestas: um homem importunado por uma mosca, quer ver-se livre dela; decepcionada com a cartomante, uma mulher a estrangula; um ofício, um encadeamento de movimentos de máquina.

O jogo tendia para a lentidão da câmara lenta do cinema. Mas enquanto a câmara lenta do cinema é uma desaceleração dos fragmentos do real, a nossa desaceleração era a produção lenta de um gesto no qual muitos outros eram sintetizados.

Esse jogo já legível era belo.

Eram reproduzidos os ruídos da cidade, da casa, da natureza, o grito dos animais. Isso com a boca, com as mãos, com os pés.

Num rápido conciliábulo - três minutos no máximo - os alunos compunham o roteiro que executavam imediatamente.

Só eles sabiam o que se podia esperar ou não esperar desse gênero de jogo: deviam, portanto, ser seu próprio dramaturgo. No final da temporada de 23-24, eles deram um espetáculo para uma platéia fechada.

Tendo ainda só um ano de estudos, não fui admitido a participar desse espetáculo.

Tranqüilo na minha poltrona, vi um espetáculo inaudito.

Tratava-se de mimo e de sons. Tudo sem uma palavra, sem uma maquilagem, sem um figurino, sem um jogo de luz, sem acessórios, sem móveis e sem cenário.

O desenvolvimento da ação era tão elaborado que conseguiram conter várias horas em alguns segundos e vários lugares num só.

Tinha-se diante dos olhos, simultaneamente, o campo de batalha e a vida civil, o mar e a cidade.

As personagens passavam de um a outro com total verossimilhança.

O jogo era comovente, compreensível, plástico e musical.

Estávamos no mês de junho de 1924.

As realizações que hoje em dia causam admiração não superam o que foi feito naquele dia, e nem sempre chegam até lá.

 
(Julho de 1939.)

 

1. " (...) une cour du roi Pétaud " [uma corte do rei Petô]: casa onde todos mandam, menos o dono.  [JRF]  [volta]
 


 In Étienne Decroux, Paroles sur le mime [Palavras sobre o mimo]. Paris: Gallimard, 1963. - Tradução de José Ronaldo Faleiro.

 

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