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Quadros de uma exposição:
2. Um laço entre a técnica e a arte *
 

Gustavo Corção

 


Existe um laço entre a atividade técnica e a arte muito importante para a vida e o progresso da técnica. Ambas as atividades pertencem ao domínio do intelecto prático, como já sabemos; mas a ordenação ao útil de um lado e ao belo de outro parece separar definitivamente os dois tipos. Numa análise superficial, ninguém difere mais de um poeta de cabeleira despenteada do que um engenheiro com sua régua de cálculo. Na verdade, a técnica lida com categorias claras, demonstráveis, sujeitas à quantificação, e seus resultados têm uma evidência fácil a quem ninguém pode subtrair-se. Se eu invento e desenvolvo um tipo de lâmpada, torna-se visível e facilmente comunicável o fato de tal lâmpada acender-se e iluminar. À primeira vista parece que a aptidão técnica e a aptidão poética pertencem a dois tipos de espírito quase opostos: ao racionalista, cartesiano, calculador, e ao fantasista sonhador. Mas há uma parte da técnica que se assemelha extraordinariamente à criação poética, e que talvez até com ela se identifique. Refiro-me à invenção, entendo por invenção não somente as grandes criações técnicas como também as improvisações que acompanham de perto cada elaboração técnica.

A invenção não se deduz do estado anterior da técnica, não se elabora claramente, racionalmente, a partir dos resultados já adquiridos. Ao contrário, traz uma forma nova tirada de uma aproximação imprevista entre duas coisas que estavam afastadas e incomunicáveis no universo. Aristóteles assinalou bem essa extraordinária faculdade do espírito humano de aproximar as coisas distantes, de encontrar analogias nas diferenças, até o ponto de poder construir uma filosofia do ser, noção analógica que une tudo a tudo. O espírito de rotina consiste em ver o universo arrumado em compartimentos mais ou menos estanques, cada coisa servindo para cada serviço e a ele se atendo. O espírito poético, ao contrário, descobre um estranho parentesco que existe entre todas as coisas, e não recua diante de aproximações que a muitos pareceriam estapafúrdias. A construção da metáfora, instrumento principal da poesia, obedece a essa idéia de aproximar as noções distantes, de relacionar o que parecia divorciado, de casar o que se apresentava como imcompatível. O poeta propriamente dito, isto é, o homem que faz versos, sente como ninguém a polivalência das palavras, e ouse servir-se delas em lugares e com aplicações muito diversas das usuais. Ora, o técnico criador, o inventor, é uma espécie de poeta que sente em cada coisa a sua polivalência e a sua imensa, infinita árvore genealógica. E não só as coisas naturais, como também as próprias formas anteriormente criadas pelos técnicos podem servir em outros lugares, com funções diferentes das usuais. A atividade técnica é uma espécie de operação combinatória de tudo o que existe, e por isso os resultados, os aparelhos montados, as formas novas, são curiosíssimas convergências de coisas vindas dos quatro cantos do mundo. Vejam um aparelho de rádio e considerem as peças e a matéria de que são feitas. Predominam ali os minerais que vieram das minas espalhadas e marcaram encontro naquele pequeno aparelho, mas há também as fibras vegetais e até contribuições do reino animal.  Temos o cobre, o ferro, o estanho, as fibras sintéticas, fibras naturais no algodão que isola os enrolamentos, e há no meio de mil coisas a presença maluca, lírica, da cera produzida pelas diligentes abelhas. Tudo fora de seu lugar natural, tudo naturalizado em um novo lugar artificial.

Sendo assim, deduz-se que a técnica só poderá avançar, de invenção em invenção, no meio cultural onde a arte for livre e espontânea, onde a poesia funcionar como poderoso e misterioso estimulante. Sempre me pareceu que nos institutos de natureza técnica, como por exemplo o Instituto Militar de Engenharia, ou o Instituto de São José dos Campos, deveriam cultivar estreito contato com a arte, representada pela música, pelos livros com boas reproduções de pintura, e por biblioteca de literatura em duas ou três línguas. A presença da experiência artística ao lado da atividade técnica é um estimulante e um preservativo de estupidez. É claro que os poetas existem para função mais alta: louvar a Deus, dignificar o homem, enriquecer o mundo, mas isto não impede a existência dessa função secundária e mesmo assim muito importante. Estimulante espiritual, atinge camadas de atividade humana onde parecia não haver lugar para o lirismo. E atrevo-me a dizer que há mais viva e forte conexão entre a lírica de Camões, os quadros de Rembrandt, a música de Bach, e o extraordinário desenvolvimento técnico da Europa, do que entre esse mesmo resultado e os outros fatores usualmente apontados pelos historiadores. Todo o mundo hoje aposta demais nas causas materiais, nos fatores econômicos, com esquecimento das causas mais altas e mais vivas, que traçam linhas de fogo no universo da cultura. Não pretendo de modo algum asseverar que um povo de poetas e pintores tivesse por isso, necessariamente, os melhores técnicos; mas ouso dizer que um povo que apostasse demais na técnica, e desprezasse a paleta, o violino, o soneto, acabaria perdendo a técnica por incapacidade de produzir novas criações do espírito nesse domínio.
 

* Este texto é parte de um artigo maior. Estamos publicando trechos desse artigo: 1. Movimentos3. "On pârlat énormement d'art...". [volta]


In "O Desconcêrto do Mundo", Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1965, págs. 221-225.

 

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