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Quadros de uma exposição:
1. Movimentos *
 

Gustavo Corção

 


Faz algum tempo surgiu em nosso meio uma brotoeja estética com o nome de movimento concretista.  Devo confessar que os exemplos que me foram proporcionados e as fisionomias que vi nas notícias de tal movimento não contribuíram para me aguçar o interesse.  É verdade que quem vê cara não vê coração, mas se me permitem usar os recursos da sintaxe visual apregoada pelo movimento, direi que não me entusiasmei pelo espetáculo.  Na verdade porém o que não me entusiasma é outro fenômeno independente do mérito do tal concretismo que até hoje não sei bem em que consiste.  O que realmente me tira o entusiasmo no caso é mais o movimento do que o concretismo.  Em primeiro lugar não gosto de imposições e de intimidações, e não vejo a necessidade de gritar, de falar em capital espoliador e outras coisas para inculcar a idéia de uma nova experiência estética.  Mas ainda independentemente do caráter agressivo e intimidatório, o de que não gostei foi do próprio movimento.  Como assim?  Não houve então na história da arte grandes movimentos de inovação e de criação de novas fórmulas?  Houve.  E ainda mais: alguns ou quase todos encontraram resistência e foram combatidos, mas não se segue daí que a recíproca seja sempre verdadeira.  E ainda menos se segue que seja bom fazer um movimento, entrar num movimento, tomar parte de um movimento.  Uma das características do nosso tempo é a mania de tudo fazer coletivamente, em grupos.  Esse fenômeno de maior grupalismo, de maior gregarismo, tem seus lados bons e seus lados menos brilhantes, e foi dele que falou o Papa João XXIII na encíclica Mater et Magistra na parte chamada Socialização.  Devemos notar que o termo não estava no original mesmo porque o latim não comporta a formação do vocábulo, mas o que importa frisar é que o fenômeno descrito (apenas descrito e não armado em termos de princípio como alguns precipitadamente afirmaram) não tem a menor relação com a idéia de socializar tal como a entendem os socialistas.  No sentido dado pelo Papa, e muitas vezes adotado pelos sociólogos americanos, socialização quer dizer simplesmente associação, agrupamento, coletivização de certas coisas que antes se faziam mais individualmente ou mais isoladamente.  O fenômeno em si só é moralmente e culturalmente neutro, podendo ser bom aqui e menos bom acolá.  Pode haver uma intensificação do estudo e da pesquisa em equipes, o que é bom para certo tipo de estudo, e medíocre para outro que exige do estudioso maior poder criador, e portanto maior isolamento.  E assim como há uma socialização do estudo, de vários valores, há também uma socialização da mediocridade, da impostura e da estupidez.  Sem falar nas socializações que têm como objeto as curras, e às vezes terminam em assassinato, como se viu no caso da pobre moça atirada do décimo segundo andar.

Voltando a falar nos movimentos artísticos, sobretudo nos que ostentam a bandeira de uma descoberta, ou de uma inovação, devo dizer que não me parece fecundo o método.  A criação artística, sendo o que é, vindo de onde vem, requer solidão.  Experiência pessoal profunda, a experiência poética precisa de um condicionamento de solidão para maior fecundidade.  Quem não tiver consciência do fato de estar só - on est toujours seul [Pablo Picasso] - e até não tiver uma mistura de dor e de gosto pela solidão, jamais será poeta, jamais será músico, jamais será pintor.  O artista está imerso na vida, imerso na sociedade, imerso na comunhão, mas na hora do ovo, na hora suprema da invenção, da criação, precisa ter a suprema independência da solidão, e sobretudo precisa não ter lembrança de pertencer a tal grupo, de estar comprometido com tal escola, de ser designado com tal denominação.  Tudo isto vem depois da obra feita.  O movimento, a denominação, a corrente, tudo isso será ou não será apontado pelo crítico, será ou não reconhecido pelo público, mas seja como for vem depois.  Um cenáculo concretista ou abstracionista com anúncio de matrículas abertas é fábrica de medíocres, e nessa matéria seria melhor que os medíocres se desinteressassem.  O medíocre não pode ser enxotado da cidade política, não pode ser escorraçado da Igreja, mas pode e deve ser expulso da pintura, da música, da poesia.  Chesterton disse muito bem que há certas coisas que nós devemos fazer por nós mesmos, ainda que as façamos mal: assoar o próprio nariz, educar os filhos, votar, casar.  Mas há outras coisas especiais que só devemos fazer se as fizermos bem feitas.

Repito: quem não tiver a coragem da solidão, o amor da solidão, não é poeta, não é pintor, não é músico.  Mas por favor não digam precipitadamente que minha tese é individualista.  Eu poderia provar que a maior parte das socializações são disfarces, antíteses e pseudônimos do individualismo, mas deixo este debate para outra oportunidade.  Agora, no que nos interessa, convém simplesmente dizer, como Chesterton, que há coisas muito importantes que os homens devem fazer juntos: uma delas é a ação política.  Há outras, entretanto, desde as mais triviais até as mais sublimes, que os homens devem fazer na solidão ou no recato.  Uma delas é a arte.  A rigor talvez fosse melhor dizer que há certas coisas que os homens devem fazer em dois tempos: um tempo de comunhão e um tempo de solidão.  (...)

Ao contrário do que parece num primeiro exame superficial, a obra de arte será tanto mais comum no sentido de comunicável, e tanto mais social no sentido próprio do termo, quanto mais pessoal e profunda for a experiência criadora do autor.  A solidão exigida para a boa germinação não é pois um isolamento com caráter de ruptura, é antes um recolhimento para uma difusão mais intensa, ou é uma preparação íntima para uma irradiação pública.  Na própria estrutura da matéria existe algo de parecido com o que tentamos exprimir: à medida que se adensa o mundo físico, e que as partículas se fecham num corpo com massa maior, cresce em torno dessa condensação, dessa reclusão, um campo mais largo e mais comunicante.  A geração da vida também segue a mesma lei; não há nada mais escondido e recatado do que a câmara conjugal, que dentro da casa se esconde da casa, mas também não há nada mais publicado do que a criança que nasce.  Há um pudor para a concepção da poesia, como há um pudor para a fecundação vital.  É penoso ter uma pessoa a ler por cima do ombro o que escrevemos, embora isto mesmo que escrevemos tenha a ambição de chegar a milhares de leitores.  E não basta a solidão física, que Mozart nunca teve, e que Santa Catarina de Sena em sua vida mística nunca logrou alcançar.  A solidão principal, indispensável, é outra, feita de total isenção e de completa independência.  O poeta não tem nenhuma obrigação de manter compromissos com manifestos, movimentos e classificações literárias.  Se a crítica já o inseriu em determinada constelação, se já traçou esquemas para a caracterização da índole da sua obra, melhor será que ele se esqueça de tudo na hora de compor.  O mundo está cheio de compromissos muito respeitáveis e muito pesados, que mal cumprimos; não inventemos outros.

Torno a dizer que há um pudor para a criação artística como há um pudor para a criação da vida.  E é por isso que esses ruidosos movimentos me sugerem a imagem de um bordel, com muita algazarra e pouca fecundidade.
 

(*)  Apresentamos aqui um trecho de um artigo que é bem mais extenso.  Publicamos alguns outros extratos desse artigo: 2. Um laço entre a técnica e a arte3. "On pârlat énormement d'art...".  [volta]


In "O Desconcêrto do Mundo", Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1965, págs. 208-214.

 

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