Para que a escrita seja legível
Para que a escrita seja legível,
é preciso dispor os instrumentos,
exercitar a mão,
conhecer todos os caracteres.
Mas para começar a dizer
alguma coisa que valha a pena,
é preciso conhecer todos os sentidos
de todos os caracteres,
e ter experimentado em si próprio
todos esses sentidos,
e ter observado no mundo
e no transmundo
todos os resultados dessas experiências.
Maio, 1963
Que jamais seja um sofrimento
Que jamais seja um sofrimento
viciosamente cultivado
para transformar-se em momento
de verso, espúrio intento da arte.
Mas a arte que, a cumprir seu fado,
por força de sonho ou tormento
se volva num momento dado
coisa divina, imensa e à parte...
4-3-50
Neste Longo Exercício de Alma...
Ciência, amor, sabedoria,
- tudo jaz muito longe, sempre...
(Imensamente fora do nosso alcance!)
Desmancha-se o átomo,
domina-se a lágrima,
vence-se o abismo:
- cai-se, porém, logo de bruços e de olhos fechados,
e é-se um pequeno segredo
sobre um grande segredo.
Tristes ainda seremos por muito tempo,
embora de uma nobre tristeza,
nós, os que o sol e a lua
todos os dias encontram,
no espelho do silêncio refletidos,
neste longo exercício de alma.
1955
E Assim Passamos a Tarde
E assim passamos a tarde
conversando coisas banais,
da superfície do mundo.
E estamos cheios de mistérios
que não comunicamos.
E assim morreremos, decerto.
E não dais por isso.
Julho, 1962
In "Poesia Completa", Ed. Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1993, págs. 1403, 1056, 1083, 1205.