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Grupo Tempo - Textos
Pequena meditação
sobre o trabalho do ator

Bel Ribeiro

 


Estava lendo São João da Cruz, que denomina a memória, a inteligência e a vontade faculdades espirituais.

Para mim, parece cada vez mais clara a idéia de que é com elas (as faculdades espirituais) que o ator trabalha fundamentalmente. Digo fundamentalmente porque é lógico que o ator precisa usar a matéria que lhe é disponível para criar - seu corpo, sua técnica, o espaço onde trabalha, etc. Porém me parece ser na inteligência e na vontade que se dá o impulso, a explosão da criação.

Em 2002 o Grupo Tempo está completando dez anos de existência. Foram os dez anos mais difíceis e maravilhosos de minha vida. Os que mais me transformaram. Anos que me fizeram entrar em confronto comigo mesma. Temos uma maneira bastante maluca de trabalhar. Não somos um grupo disciplinado quanto ao treinamento físico. Temos dificuldade de encaixar nosso trabalho no mercado e também de dialogar com a sociedade. Porém o nível de reflexão e de autoquestionamento que se exige neste Grupo é algo raro de se encontrar, porque nossa meta principal como artistas é: estar a serviço da verdade. E jogar fora as próprias muletas. E desmascarar-se para si mesmo e portanto para o público também.

Este ano que passou foi muito rico. Com o Projeto Residência de Teatro da Secretaria do Estado de São Paulo tivemos condições de trabalhar de março a novembro num ritmo constante e intenso. O espetáculo que resultou foi Drakul - paixão e morte. Oferecemos várias oficinas abertas à comunidade, onde refletimos junto com vários profissionais amigo como é fazer esse teatro que a gente quer.

Gostaria de dizer algo que foi importante descobrir durante esse processo: o ator tem uma solidão que deve ser compartilhada. Talvez isso seja óbvio, mas pra mim foi como agarrar com a mão algo que estava flutuando na frente do meu nariz o tempo todo.

Porque é tão difícil estar completamente presente em cena (nos ensaios também)? Que dificuldade é essa que o ator tem de estar exatamente onde está? No espaço e no tempo atuais - aqui e agora.

Acho que o que nos atrapalha são os nossos desejos. O homem tem extrema dificuldade de aterrissar no presente, na realidade. Parece um paradoxo que para sermos artistas precisemos saber partir do que é real. Sim, porque crescemos aprendendo que o artista é um ser imaginativo, que sua matéria prima são os sonhos. Sim, mas... um sonho não sonha.

Deixa-me tentar ser clara. Assim como Drácula não consegue viver o momento presente, vive da recordação do passado e da ansiedade pelo futuro, da vida que sugou e da que está para tomar posse... No momento em que o sangue dos outros some de suas veias, ele não "é" mais ninguém. Assim o homem. Assim nós, quanto mais desejos e necessidades temos e/ou criamos, menos conseguimos a felicidade, a paz, a liberdade necessária para criar. Parece que ficamos preocupados com "o que está achando de nós aquele colega que observa a cena?", "qual é a imagem de mim que chega até ele?"; "e o diretor? estará gostando? estará me achando criativo?" E assim, com essa multidão de desejos pululando em nosso coração e embaçando nossa inteligência, ficamos paralisados ou, na melhor das hipóteses, canalizamos toda a nossa inquietação para interpretar a tão já conhecida "ameba angustiada" - um inferno!

Nos últimos tempos tenho procurado libertar-me dessa masmorra de desejos para estar só, para não depender tanto de condições externas, para perder o pânico de estar aqui e agora, para poder compartilhar essa solidão com os outros. Ser simples e objetiva! Tarefa para uma vida inteira.

Claro que não estou falando de um isolamento em relação aos outros atores. Não! É que é impossível, como diz Confúcio, pôr ordem na cidade se a própria casa está uma bagunça.

Isso tudo parece subjetivo, mas na realidade não é. É que não nos ensinaram a pensar. Bom, se ensinaram, eu pelo menos ainda não aprendi. O jeito é continuar nessa peleja - aceitar a realidade e partir dela. Uma coisa de cada vez.

São Paulo, setembro de 2002.

 

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