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Lições de Abismo
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Lições de Abismo
(excertos)

3  O aniversário do general

 

Gustavo Corção
 
 


É dia de festa em casa do general. Explicou Jandira, a cozinheira, que sua excelência faz anos; e concluo eu que os mimos e as flores que incessantemente chegam ao portão do general-ministro vêm dos empreiteiros em dificuldades e dos fornecedores esperançosos.

Logo pela manhã vi chegar o primeiro portador com uma vistosa corbeille de rosas. Havia na cesta para mais de cinqüenta rosas. Depois, no correr do dia, chegaram dálias, gladíolas, estrelícias, gérberas e agapantos. Ao anoitecer chegou ainda uma camionete carregada de rosas. Pude vê-las distintamente. Eram rosas de qualidade, parecidas com a minha doentia Gertrud, mas viçosas e desempenadas.  Passaram por mim como as altivas condessas que a carroça da revolução levava à Conciergerie.

O general, quando chegar, dirá com prazer: "Bonita corbeille"; mas não verá as rosas (...)   Sua excelência, vendo o cesto, o conjunto, o aglomerado, não vê as rosas; como também não vê os rostos, não adivinha os nomes, não suspeita as aflições, os segredos, quando vê a praça apinhada de gente, nos dias de vibração cívica, do alto do palanque presidencial. A praça cheia de gente é também uma corbeille, um mimo para seus olhos de ministro.

Agora, na intimidade, o general é um demagogo de rosas.  Recebe-as aos montes, em comissões, em manifestações coletivas.  E a impudicícia das flores ainda me parece mais chocante do que a dos míseros papalvos que se apinham em torno do palanque.  Vejam aquelas estrelícias, complicadas e pedantes, como se alçam, como se torcem, para agradar ao homem de Estado!  Vejam os agapantos: parece que empurraram um deles, magricela, espevitado e melancólico, para saudar o homem de prestígio.  É o orador da turma. "Nós, os argapantos desta cidade maravilhosa..." E as dálias? Oferecidas, inchadas, pavoneiam-se nas cestas para que a mão gorda do ministro vá buscar, no colo delas, o cartão do galante empreiteiro.  E as próprias rosas, as pérfidas! enchem o ar de perfume.  Qual é a relação que pode existir entre a lisonja de um fornecedor e o perfume das rosas?

Disse eu que o general, não vendo as rosas, via a corbeille?  Disse mal.  Ele não vê a corbeille, como não vê as rosas.  O próprio conjunto arrumado na cesta não tem existência própria, significação própria.  É um sinal. Pertence à categoria dos telegramas, dos distintivos, e das condecorações.  É um mero sinal. Poderiam os áulicos enviar o recibo estampilhado com o preço das flores, e o efeito seria o mesmo.  Por que não é a flor, nem o monte, nem o arranjo, nem a combinação de cores, nem o capricho das pétalas que o general apreende quando lhe trazem o presente. Não. O que ele vê, na transparência do sinal, é a subserviência. Atrás da rosa estão as espinhas encurvadas, os sorrisos subalternos. No perfume das flores, o incenso da lisonja interesseira e abjeta. É isso que o ministro vê naquele luxo de pétalas e de cores.  É a esperteza, a hipocrisia, a elementar astúcia do bajulador.


Mas se assim é, como se explica a satisfação do homem de Estado diante de tão feio espetáculo? Ele sabe, evidentemente, e até por experiência própria, que a bajulação é uma coisa feia, uma coisa abjeta.  Melhor do que ninguém o homem de Estado conhece o exato valor da lisonja.  Como se pode então compreender seu gordo sorriso satisfeito diante de tão repugnante significação que as rosas escondem?

Creio que poderei explicar o fenômeno com mais uma retificação.  Disse há pouco que o ministro vê atrás das flores os sorrisos de subserviência. Corrijo agora. Não. Ainda não é aí, nas figuras dos empreiteiros e fornecedores que se detém o olhar satisfeito do aniversariante poderoso.  A bajulação é também um sinal. Sinal em segunda instância, ainda não é aí que descansa o olhar do general.  Não.  O que ele vê nesse jogo de espelhos, rosas aqui, fornecedores acolá, é a sua própria importância, a sua própria face, a grande, a única realidade, em torno da qual o mundo inteiro é uma enorme moldura.


In Corção, Gustavo. Lições de Abismo.  Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1958, p. 121-124.

 

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