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Lições de Abismo
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Lições de Abismo
(excertos)

1  O enterro do Ferraz

 

Gustavo Corção
 
 

Dias atrás fui a Real Grandeza, na dependência nova do São João Batista, onde os mortos se despedem dos vivos em pequenas câmaras mortuárias superpostas como os exíguos apartamentos modernos. Cada defunto tem lá sua eça, e cada família sua meia dúzia de cadeiras para as dores mais acabrunhantes. Os amigos e os parentes afastados podem chorar de pé.  Nem é preciso maior conforto para tão rápida despedida.

Eu ia, como se diz, prestar meu último tributo de amizade ao Ferraz, o velho professor de química que morrera de repente, de uma angina-de-peito. Não fixara, porém, com a devida atenção, as indicações da portaria, e fui parar numa câmara mortuária onde eram estranhos os vivos de faces desfeitas, e muito mais estranho o morto de rosto impassível. Enganara-me de dor; aquela não era a minha; a morte que ali ostentava o seu trivialíssimo espetáculo era a morte-em-geral, a mesma que pega Sócrates ou Caio nos laços do silogismo.  Os sofrimentos que ali se estampavam nas fisionomias eram também os que se costumam designar com os nomes genéricos de luto, orfandade e viuvez.

Quando desci, e entrei na sala de baixo, vi logo o rosto comprido do Ildefonso, a calvície do Barata, o Carlinhos abraçado com Helena, e no fundo, sentada e inconsolável, a viúva. No meio da sala, coberto de flores, que só deixavam aparecer o rosto e as botinas, estava o que fora o velho Ferraz. E, logo que entrei, senti o clima do estupor:

- Parece impossível! Ainda ontem...

- Perda irreparável, ir-re-pa-rá-vel, soletrou-me o Ildefonso ao ouvido com voz cava.

- Parece mentira, disse também a viúva ao abraçar-me.

E eu, estupefato, olhava a cena, e admirava-me que se admirassem tanto.  O fenômeno mais trivial do universo, personalizado, tomava proporções de maravilha. E todos - uma gente cansada de ir a missas de sétimo dia - todos se admiravam do cadáver do Ferraz, como se estivessem a contemplar uma aurora boreal.

A mim mesmo, que tinha essas idéias, custava-me crer que aquilo fosse o Ferraz.  Parecia-me que havia um embuste, uma mistificação, e que de repente íamos todos rir da farsa.  Mas não; era ele mesmo, o Ferraz, que ali estava morto e bem morto.  Mais morto do que os pregos do caixão, como diria Dickens.

A sala enchia-se cada vez mais de amigos, discípulos e parentes, que já começavam a falar de outras coisas, uma vez que da morte, passado o primeiro instante, pouco se tem que dizer. A própria viúva já chorava discretamente, como se tomasse cuidado que sua dor não excedesse os limites daquela sala alugada para o efêmero acampamento de uma aflição.  O edifício todo era assim dividido em sofrimentos estanques.

Olhando a chama que se debatia no topo de seu mastro de cera, eu fiquei pensando que um grande Fogo passara por ali e deixara uma pequena amostra para cada defunto. As coroas de flores também se separam, e são etiquetadas com o nome do morto para bem marcar a quem se dirigem aqueles sentimentos tão vagos e tão universais escritos em letras douradas.  Mas as abelhas, que circulam à vontade por todo o edifício, talvez sejam da mesma colmeia. Serão elas talvez que irão fundir na mesma doçura as pobres amarguras separadas.

Eu fiquei pensando que as dores se separam em beliches, e se concentram, e quase se escondem, como se fossem conspirações, porque os homens entre si se separam; e os homens entre si se separam porque cada um de si mesmo se separa.

Outra coisa que observei nesse enterro do Ferraz foi que as pessoas vão ao defunto como a um juiz.  Apresentam-se para serem julgadas nesse estranho tribunal em que o magistrado fica imóvel e silencioso. Ele não precisa acusar; os vivos se acusam.  Os vivos esbarram na evidência das omissões.  Ainda ontem era possível uma palavra, um gesto, um sorriso.  Hoje é tarde; o defunto está ali para lembrar o que poderíamos ter feito, e não fizemos. E os vivos, que contam sempre com a indefinida oportunidade, ficam agora perplexos. Quereriam dizer qualquer coisa, mas esbarram no obstinado mutismo do defunto.


Devo a mim mesmo uma explicação. O tom com que estou recordando o enterro do Ferraz parece inafetivo, seco, sarcástico, como se não me tivessem chegado ao coração as lágrimas da viúva. Não. lembro-me bem que sofri com d. Maria Aparecida, que senti falta do Ferraz, mas muito mais sofri, oh! muito mais, com o espantoso equívoco que parece perseguir o homem, e que nessas circunstâncias toma alucinantes proporções.

Sim, é isto que me dói, e como dói.  Há pessoas que falam quase sempre de um modo caloroso, com indignação fácil e cólera pronta.  A qualquer injustiça cerram os punhos e desatam a generosa paixão dos sangüíneos. Gosto de vê-los; mas em geral fico alheio ao tom maior de suas indignações. A mim o que mais fere, o que mais dói são os equívocos que vejo no mundo.  Essa é a minha triste dominante: uma exasperação do senso do ridículo.  E só quem já viveu essa experiência é capaz de avaliar a dor aguda, penetrante, glacial, que permanentemente me faz companhia.  Falam de um inferno de fogo; eu penso às vezes num inferno de gelo.

 


In Corção, Gustavo. Lições de Abismo.  Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1958, p. 50-54.

 

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