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Gustavo Corção
 

Gilberto Freyre
 

Senhores Conselheiros: creio que estamos todos nos sentindo atingidos pela grande perda que acaba de sofrer a cultura brasileira com o súbito falecimento de Gustavo Corção. Era realmente, todos sabemos, um grande escritor que ficará nas letras brasileiras como permanente valor.

Por mais que se discorde dessa ou daquela de suas atitudes e deste ou daquele de seus pronunciamentos, ele permanecerá uma figura de extraordinária grandeza das letras brasileiras, do pensamento brasileiro, e, mais do que isso, uma figura marcante de homem digno e de defensor da dignidade do espírito do Brasil. (...) Lembrarei recente pronunciamento no mesmo Conselho (Federal de Cultura), de Gustavo Corção sobre a situação atual da Física ou das Físicas. Admirável pronunciamento. Sabe-se que ele era engenheiro. Sua formação era científica. Sua formação era de um lógico. Pelo seu grande talento, pela sua grande inteligência, Corção iria além da lógica. Além da ciência. Além do racionalismo, não para ser um anti-racional, mas um super-racional no seu modo de ser religioso e de ser Católico: de ser fiel à sua fé. Como foi fiel à sua fé! Que bravura nessa sua fidelidade lúcida! Que bravura nas suas atitudes, no seu modo de ser só, no seu modo de ser, quando preciso, impopular, no seu modo de enfrentar uma imprensa quase em peso contra ele. (...) Mais: várias vezes ele se rogozijava do fato de ver que contra ele estando muitos dos intelectuais brasileiros, por vezes com ele estávamos Nelson Rodrigues, Ariano Suassuna e eu.

Era capaz de analisar situações e de considerar divergências. Porque era de fato de uma grande inteligência analítica, ao lado do seu poder de síntese.

Srs. Conselheiros: quase estou a chover no molhado porque o que estou a dizer está na consciência de cada membro deste Conselho. Foi de fato uma suprema inteligência esta que acaba de desaparecer. Que acaba de deixar um grande vazio na cultura brasileira. Ao mesmo tempo são luminosos exemplos de inteligência atuante e de dignidade de espírito, que dele vão sobreviver. Não podíamos deixar de iniciar a reunião de hoje sem este preito à memória de Gustavo Corção, ao qual sem dúvida irão se associar os srs. Conselheiros em palavras mais eloqüentes.

 

In Freyre, Gilberto.  Gustavo Corção.  Recife: Conselho Estadual de Cultura, 1978.

 

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