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Curriculum Vitae
 

Gustavo Corção
 

Mais uma vez um dos funcionários do Sr. Bloch envia para me esmagar uma carta onde sou apresentado com uma folha de serviços pavorosamente branca e vazia.  Na opinião do Sr. Murilo Melo Filho, eu consegui viver setenta e dois anos sem fazer nada e sem ajudar ninguém. Aterrado, ia eu responder-lhe gemendo que não me parecia bom o critério com que aquilata as pessoas por folhas de pagamento e impostos pagos porque, com essa pedra de toque, seriam grandes homens os Rothschilds, os Onassis, e desprezíveis os Einstein, os Mozart e principalmente os São Francisco de Assis.

Ia também responder-lhe que as boas obras que acaso realizei nos intervalos milagrosos de minha maldade não podem ser trombeteadas sem perder seu magro valor. Não posso, pois, informar ao diretor de "Manchete" que algum dia dei uma excepcional esmola, ou que algum desgarrado achou o caminho da Igreja nas minhas pregações.  Ai de mim, senti-me esmagado, derrubado, achatado, amordaçado; e estava para gemer uma súplica de clemência quando subitamente li uma palavra que me tocou o nervo do ofício e me desatou a pena.  O Sr. Murilo me cobra chaminés, me pergunta quantas chaminés contruí.

O diretor de "Manchete" não sabe, ao que parece, que sou engenheiro. A título de informação, e para completar os arquivos de "Manchete", aqui trago minha folha corrida. Começo pelos 23 anos: estou no Município de Ponta Porã trabalhando em astronomia de campo. Um ano depois dirijo o serviço de coordenadas geográficas no serviço da carta do Estado do Rio. Nesse meio tempo apresentara ao Dr. Morize e ao Dr. Allyrio de Matos um trabalho original sobre determinação de latitude, com teodolito, sem leitura do círculo vertical.  Em 1922, pensando em casar-me, troquei a astronomia pela eletricidade industrial, e aqui se tornam mais terrestres e palpáveis minhas chaminés.  Fui uma miniatura do Polvo Canadense em Barra do Piraí em cujo município dupliquei a rede e instalei um serviço telefônico em Vassouras.  Mais tarde, em 1924, fui o Dr. Antônio Gallotti de Cachoeiro do Itapemirim onde, modéstia à parte, nasceu Rubem Braga.  Instalei em Cachoeiro o serviço telefônico e uma linha de bonde elétrico que espero ter alegrado a meninice do gracioso cronista.

Em 1926, já casado, mudei-me para o Rio e para radiocomunicação. Foi na estação receptora da Radiobrás, em Jacarepaguá, que trabalhei, que vivi como uma espécie de monge eletrônico durante treze anos. Aquela grande empresa, formada de grandes capitais estrangeiros, cometera o grave erro de extrapolar indevidamente uma fórmula empírica, e de acreditar que as ondas longas, de 20.000 metros, chegariam à Europa e aos Estados Unidos. Foi um fracasso total, e a empresa faliria se três engenheiros indígenas não tivessem a idéia de lançar mão das ondas curtas, e não tivessem montado transmissores e receptores provisórios.  Esses três engenheiros foram José Jonotskoff de Almeida Gomes, Carlos Lacombe e o autor destas mal traçadas linhas.  O Rodrigo Otávio Filho e o Dr. João Buarque de Macedo estão aí para dizer que não minto. Em 1928 fui eu, na Taquara, quem fez, com a cabeça e com as mãos, a aparelhagem que inaugurou a telefonia internacional no Brasil.  Foi também nesse tempo que inventei um órgão eletrônico que entusiasmou frei Pedro Sinzig e que me parece ter sido o primeiro a ser feito no mundo, talvez empatado com o do francês Martenot, que conheci anos depois.  Com a idéia de industrializar a invenção, e ajudado por meu irmão e outros companheiros, fundamos a Rádio Cinefon Brasileira, que logo depois se desviou para atender a encomenda da Companhia Telefônica Brasileira e se tornar, assim, pioneira deste ramo de indústria. Grave, Sr. Murilo, estes três marcos pioneiros e passemos adiante.

Em 1935 fomos procurados pelo coronel Amaro Bittencourt a fim de organizar e iniciar um curso de telecomunicações na Escola Técnica do Exército.  Marque, por favor, mais esta baliza.  Permaneci na Escola Técnica do Exército (hoje Instituto Militar de Engenharia) até a aposentadoria, e foi aí que tive o prazer de enquadrar dois professores judeus refugiados. Peço ao Sr. Murilo que me marque esta estrela. Mais tarde fui também organizador e iniciador do curso de telecomunicações na Escola Nacional de Engenharia, onde no ano seguinte fui escolhido como paraninfo de quatrocentos engenheirandos.

E aí estão as chaminés metafóricas, sem falar em duas autênticas chaminés que construí em Barra do Piraí, e de muitas coisas menores, como por exemplo o estudo fisiológico e eletrônico do ouvido, e a palestra pronunciada sobre este assunto, pela primeira vez, na Faculdade Nacional de Medicina, a pedido do professor Carlos Chagas. Recentemente fabriquei em casa vitrolas de alta fidelidade para os filhos e amigos.  Tenho em casa uma pequena e desarrumada oficina (que meu neto Nick acha "maravilhosa") onde me refugio quando engrossa no Brasil a onda de besteiras: a técnica é meu rio Lete (veja, Sr. Murilo, o Petit Larouse: Léthé).

O Sr. Murilo diz que eu nunca montei um colégio. Não teve sorte o recadeiro do Sr. Bloch.  Com minha mãe e toda a família, sou co-fundador do velho Colégio Corção.  Não entrei com capital nem fiz folhas de pagamento como quer o diretor da "Manchete"; entrei de corpo e alma.  No primeiro dia ajudei meu padrasto a pintar a tabuleta azul. Depois ajudei minha mãe a ensinar. Sim, ensinei, brinquei, vivi, namorei e casei-me no bom Colégio Corção, que vejo de longe, dourado e azul, com um anjo de fogo a defender a porta de uma infância feliz.

O Sr. Murilo falou no Centro Dom Vital.  Não.  Não rompi com os amigos, rompi com o Centro por discordar da orientação tomada pelo presidente. E aconteceu o seguinte: com minha saída, pouco tempo depois extinguiram-se as atividades do Centro, morreu a revista, e dispersaram-se os sócios. Ao contrário do que diz o senhor Murilo, os amigos se reencontraram todos em Permanência que, em dois meses, congregou mais de duas mil assinaturas para a revista e centenas de freqüentadores das aulas e reuniões.  Marque, Sr. Murilo, mais este pioneirismo temporão.

Nada disse dos livros que escrevi. Encorajado pelas chaminés direi que escrevi oito ou nove livros, alguns na 12ª edição, e traduzidos em sete línguas. Falarei dos jornais? Escrevo atualmente dois artigos por semana nos maiores jornais do País, e creio que alcanço destarte mais de um milhão de leitores duas vezes por semana.

Duas palavras sobre a vida de professor que mantenho sem descontinuidade desde os dez anos de idade.  Meu primeiro aluno pagava-me dez mil-réis para aprender as quatro operações. Andei por todos os níveis de ensino: na Escola Superior de Guerra, mais de uma vez ensinei, tendo numa dessas ocasiões, por aluno, o marechal Castelo Branco; num porão da Praça Saens Peña dei aulas de eletrônica elementar a técnicos do Departamento de Correios e Telégrafos. Ensinei meus próprios filhos a ler e até para um deles fiz a própria cartilha, e na paróquia tive o gosto de ensinar doutrina católica às empregadas domésticas...  E mais não digo, parecendo-me que já falei demais no que seria melhor guardar no coração. Altre non vi dico di questa materia.  Se o Sr. Murilo quer completar suas informações a meu respeito poderá consultar a Enciclopédia Judaica Resumida, de Fernando Levisky, p. 42.
 

O Sr. Murilo Melo Filho, se chegar aos setenta anos, apresentará certamente uma folha de serviço mais completa, com mais impostos e folhas de pagamento. Aconselho-o, porém, que desde já tome o cuidado de apagar no seu curriculum vitae o papel que está fazendo na revista onde lhe parece muito ecumênico, muito pós-conciliar, a largueza de vistas que não faz questão de contar as cusparadas que se atiram à face de quem temos por Deus e Senhor.

O Sr. Murilo fez frases com o seu Cristo e com o meu Cristo. Não ouso abordar esse tópico, nem acrescentar nada ao que os amigos já escreveram sobre o editorial do "Jornal do Brasil". Acolho com temor e tremor a terrível e imerecida homenagem que me prestam o "Jornal do Brasil" e "Manchete": ambos me desfiguram por ter protestado contra a desfiguração do Cristo Jesus no santo dia do Natal. Não posso me gabar de toda aquela poeira de coisas idas e vividas já que só na cruz de Nosso Senhor convém que nos gloriemos, mas não posso deixar de agradecer a Deus o ter-me livrado de algum dia fazer com alguém o que me fizeram os redatores de "Manchete" e "Jornal do Brasil".

 


In Corção, Gustavo. Conversa em Sol Menor. Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1980, pág. 142-146.

 

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