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A Morte do Carpinteiro
 

Gustavo Corção
 

Chamava-se José e era português. Talvez tivesse sido carpinteiro por se chamar José; ou chamava-se José para ser carpinteiro.  O fato incontestável é que morreu.  Estávamos seis amigos reunidos à noite conversando de tudo e de nada, quando um deles deixou escapar a notícia que os outros não sabiam: o carpinteiro José, o da paróquia, morrera.  E de repente a conversa se deteve diante daquela linha divisória que separa este mundo inquieto, complicado, frívolo, do mar desconhecido que os religiosos chamam de eternidade.  No dia seguinte, o mestre-de-obras da paróquia, um espanhol das ilhas, atlético, mestre de verdade em seu ofício, enigmático no diacho de idioma que fala, contou alguns detalhes. Era verdade. Morrera o carpinteiro José, o lépido e gracioso lusitano que usava costeletas, bigodinho, e tinha sempre no fundo dos olhos uma gaiatice de operário, uma alegria de menino. O mestre-de-obras vira o defunto e declarava que mesmo tendo visto não acreditava.  Era impossível, impossível. Mas a verdade é que o carpinteiro José morreu. Estava na Avenida Getúlio Vargas, na calçada, ao lado da esposa, esperando o sinal, quando veio um lotação tarado, estúpido, deu uma volta em velocidade incrível, derrapou, e com a parte traseira, numa rabanada mortal, esmigalhou a cabeça do bom carpinteiro. Quando a mulher olhou o corpo caído viu os miolos entornados na calçada. E foi assim tão simplesmente, tão municipal ou estadualmente, que o carpinteiro José morreu.  E eu, que nem o defunto vi, estou com ele na minha frente, a sorrir, a combinar o preço ou o prazo de entrega para as caixas de alto-falante. E como o bom maiorquino digo que é impossível que a alma que animava a voz, o riso, e sobretudo a mão que afagava a madeira com gestos amorosos, tenha desaparecido, tenha caído no nada, só porque um lotação derrapou.  Esmigalham-se os ossos, mas não a alma.  Mas por mais que se saiba, por mais que se diga que a alma é imortal, não deixa de ser vertiginoso o pensamento da mudança de estado. E tenho vontade de perguntar, como o poeta, ao fantasma bem vivo que a memória e a imaginação me trazem: e agora, José?

Mas deixemos o segredo da vida eterna entre Deus e o carpinteiro José. Falemos das coisas do lado de cá, enquanto por cá andamos. E meditemos na imortalidade menor, na imortalidade que os filósofos chamam de subjetiva, graças à qual o carpinteiro José continua a viver na obra humilde e perfeita que deixou em torno de nós.  Só aqui em casa tenho estantes, caixas de alto-falantes e uma casa de boneca da filhinha menor.  A mão do carpinteiro continua, e continuará vida afora, a traçar as esquadrias, a afagar as tábuas, a acertar os encaixes. E eu vejo na obra deixada a mão que a fez. E de repente, trazidos pelo exemplo do carpinteiro José que morreu anteontem e que era amigo, povoa-se o meu escritório de sinais, uns mais antigos, outros mais recentes, das mãos que fizeram tudo o que me cerca. As mãos morreram, ficou a obra.  Ficou o gesto onde pouco falta para se ver a mão. Naquela cadeira de pés recurvados, que data de muitos anos, vem-me um aceno cordial do desconhecido carpinteiro que a fez tão bela e que pôs o amor de sua alma na linha inigualável.  Com certeza também se chamava José, e vai ver que também era português...

Quem já leu o Robinson Cruzoé, com a atenção que o livro merece, há de ter experimentado o duplo e paradoxal sentimento que faz o encanto máximo da obra.  De um lado saboreia-se na narração a delícia sem par do naufrágio na ilha de perfeita solidão e tem-se a impressão de estar nos primeiros dias do mundo, quando Adão vivia só. Paraíso de solidão, mas paraíso incompleto, porque não é bom que o homem esteja só.  O outro sentimento, ou o outro lado do mesmo sentimento, é o susto feliz do personagem quando vê na areia da ilha a marca de um pé.  Pára ele, fremente de atenção; paramos nós, frementes de interesse.  A marca do pé indica que alguém está ali, passou por ali, naquela bendita sexta-feira.  Mas o pé não diz mais do que isto.  A pegada na areia denuncia uma existência, mas não diz nada que tenha ressonâncias de cordialidade e de amor.

No meu escritório fechado, na minha ilha deserta, eu vejo a mão do carpinteiro José.  Vejo-a aqui, ali, acolá, na obra, no gesto, no jeito, na habilidade e na cordialidade.  E esse discurso mudo, fixado, mas vivo, há de durar muito mais do que durou a vida do carpinteiro. A dança da mão construtiva entra na coreografia das outras mãos que fizeram os móveis antigos, que encardenaram os livros, que construíram a máquina com que escrevo e a mesa onde escrevo.

E é impossível não lembrar outro carpinteiro que era filho de José, e que também deixou sua marca inapagável, obra de sua mão, esquadria tosca, pregos enormes, na sexta-feira santa em que entregou sua simples e grande encomenda. O carpinteiro José, como creio que já disse atrás, trabalhava nas obras da paróquia e lá, em torno do altar e da cruz, deixa uma profusão de marcas que são a eternidade relativa do mundo. E a outra? E agora, José? A morte súbita sempre nos deixa esse medo da passagem dos evangelhos onde o Cristo diz que vem como um ladrão.  A morte súbita é metafísica e religiosamente difícil de aceitar. O moço carpinteiro não teve padre para confessar suas faltas, mas, meu Deus, sem pretender alterar o dogma, penso que ser carpinteiro já é quase um sacramento, e ser carpinteiro e José, e além disso ter trabalhado anos e anos em torno da cruz, tudo isso junto, somado, atirado no cadinho da misericórdia de Deus, deve valer uma absolvição e mais uma extrema-unção. E eu imagino o carpinteiro José em singela familiaridade com o outro carpinteiro, a conversar de plainas e martelos, e a discorrer sobre as puras alegrias do ofício, entre colegas, diante do trono do Pai Todo-Poderoso, criador do Céu e da Terra.

 


In Corção, Gustavo. Conversa em Sol Menor. Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1980, pág. 263-266.

 

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