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 sou como uma marionete quebrada cujos olhos tivessem caído para dentro.
(Cioran)
"Arrumei os livros escolhidos, ajeitei as rosas na jarra, e pus em ordem o armário de roupas, sentindo nisso o prazer do solteirão que se instala e um pouco do viajante que inventaria o seu beliche. E agora, correndo os olhos em volta, a verificar ainda se alguma coisa destoa, sentei-me na poltrona, para esperar com decência, com ordem, a visitante anunciada pelo dr. Aquiles."
No romance de Corção, José Maria, um professor, ao descobrir que está gravemente enfermo, recolhe-se a sua casa para refletir. Ali, mergulhando nos abismos do misterioso criptograma da memória, avalia o sentido da própria vida. E esse mergulho é feito por escrito, em um diário que, à medida que o tempo passa, vai-se tornando cada vez mais fragmentado e lúcido.
Em nossa adaptação, o professor José Maria transforma-se em homem de teatro. Ao contrário do intelectual que encontra em casa a cela monástica para a derradeira meditação, o artista volta-se para o palco. Porque é ali onde o artista de teatro interroga a vida. A sua e a de todos.
O palco é o altar onde o estertor próprio da transcendência deve tornar-se visível, desvelando o homem através da exposição poetizada da sua presença. Por isso é aí, colocando-se em risco ao expor a própria fragilidade existencial perante os espectadores, que nosso personagem procura o sentido de sua existência: "Como os supliciados que são incendiados e fazem sinais de dentro das suas fogueiras. "(Artaud, O Teatro e a Cultura)
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