desde criança me atraem os lugares altos. ombros, árvores, telhados, penhascos... o perigo do próximo passo e a excitação com o constante precipício que é a vida. a arte me ensinou a ter vertigens semelhantes..."- viver, o senhor sabe, é um negócio muito perigoso." o perigo é irmão do fim, como o medo é da morte.
o teatro nos faz há muito tempo. isso é bom. afinal, toda orientação induz à esperança, à imaginação, à relativização do ser, do aqui e do agora. em última instância, ao fim. a religião e a arte são bússolas, e eu escolhi a segunda. por isso, dirijo com a intensidade dos que rezam fundo. por isso, tendo a contar estórias. porque nesses fragmentos da vida, nos vejo representados, sempre.
um russo, desde o início do século, gostava do meu lema nesse espetáculo: "a arte está para a realidade, assim como o vinho está para a uva." o vinho não nos leva necessariamente à uva, já arte... o teatro, em nosso caso, tem que expor a vida... e a morte. porque elas dançam sempre juntas, principalmente quando evitamos ver os "caroços" da realidade.
a realidade, é sempre representação. no palco ou na vida. embora geralmente melhor no primeiro. afinal é preciso macerar, fermentar a significação das presenças do ator e do espectador para que o vinho cênico provoque a embriaguez pretendida. a arte não é um inconseqüente exercício com o acaso, mano.
os fragmentos de sensações nos formam, por mais que a gente evite. o contínuo, ou o todo, é feito de pedacinhos espalhados no espaço da vida. quando não, sempre surgem momentos de se perguntar que importância a gente deu a essa ou aquela migalha. daí precipitam-se abismos sob a gente, como na vida o céu cai sobre a nossa cabeça. o mais é a fala da cena, e da presença do homem no limite da vida.
Mario Santana