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Judite
O Espetáculo

 

Como toda a Bíblia, Judite é antes de tudo uma história simbólica, uma alegoria.  Um povo religioso e espiritualizado é cercado por um exército de bárbaros guerreiros, que além de mostrarem-se ávidos por riquezas materiais e por sangue, exigem que seu chefe seja adorado como um deus.  Estabelece-se um claro confronto entre dois pontos-de-vista, duas visões de mundo. Entre o sagrado e o profano.

O poder material e numérico do exército assírio (o poder da força, masculino) é vencido pela fé e pela astúcia de uma mulher.  O universo racionalista e opressor é vencido pelo amor e pela inteligência da alma.

 

Texto interno do programa do espetáculo

 
Vimos nessa história uma metáfora da situação do mundo contemporâneo, onde a poesia e o espírito são incansavelmente assediados (mas não derrotados) pelo poder das armas e do dinheiro.

Nossa montagem baseia-se nessa visão dual proposta pelo próprio texto.  Os assírios vestem um figurino pesado e movimentam-se de maneira forte e violenta, enquanto os judeus (e particularmente Judite) têm movimentos leves e agudos.  Os personagens assírios são interpretados com uma linguagem predominantemente grotesca, os israelitas em um registro lírico.  Até a metade do espetáculo, esses dois mundos são apresentados separadamente, depois vão se interpenetrando até chegar ao confronto final, representado pelo "duelo" entre Judite e Holofernes.

O cenário é dominado por uma grande arca, colocada no centro da cena.  Esse objeto assume várias funções: em certo momento é o trono do general Holofernes, em outro a arca da aliança dos israelitas, depois é o baú de onde Judite retira as jóias e vestidos com que se apresentará no acampamento assírio, e por fim a cama/altar em que é assassinado (imolado) o inimigo dos judeus.  O chão é coberto de folhas de jornal, que sugerem tanto o universo profano (cotidiano e horizontal) dos assírios quanto as areias do deserto.

A luz que banha o acampamento é solar, homogênea e abrasadora.  A montanha é iluminada por tons de violeta, por luzes de archotes e de velas, ganhando assim uma riqueza de volumes e tonalidades, que se contrapõem à aspereza e bi-dimensionalidade do acampamento.

Essa mesma dualidade se observa no tratamento sonoro: entre os assírios, bastões que percutem, vozes potentes e bruscas, passos pesados; entre os judeus, cânticos, preces, vozes de súplica e de louvor.

 

Judite
O Espetáculo

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