Vimos nessa história uma metáfora da situação do mundo contemporâneo, onde a poesia e o espírito são incansavelmente assediados (mas não derrotados) pelo poder das armas e do dinheiro.
Nossa montagem baseia-se nessa visão dual proposta pelo próprio texto. Os assírios vestem um figurino pesado e movimentam-se de maneira forte e violenta, enquanto os judeus (e particularmente Judite) têm movimentos leves e agudos. Os personagens assírios são interpretados com uma linguagem predominantemente grotesca, os israelitas em um registro lírico. Até a metade do espetáculo, esses dois mundos são apresentados separadamente, depois vão se interpenetrando até chegar ao confronto final, representado pelo "duelo" entre Judite e Holofernes.
O cenário é dominado por uma grande arca, colocada no centro da cena. Esse objeto assume várias funções: em certo momento é o trono do general Holofernes, em outro a arca da aliança dos israelitas, depois é o baú de onde Judite retira as jóias e vestidos com que se apresentará no acampamento assírio, e por fim a cama/altar em que é assassinado (imolado) o inimigo dos judeus. O chão é coberto de folhas de jornal, que sugerem tanto o universo profano (cotidiano e horizontal) dos assírios quanto as areias do deserto.
A luz que banha o acampamento é solar, homogênea e abrasadora. A montanha é iluminada por tons de violeta, por luzes de archotes e de velas, ganhando assim uma riqueza de volumes e tonalidades, que se contrapõem à aspereza e bi-dimensionalidade do acampamento.
Essa mesma dualidade se observa no tratamento sonoro: entre os assírios, bastões que percutem, vozes potentes e bruscas, passos pesados; entre os judeus, cânticos, preces, vozes de súplica e de louvor.