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É preciso colocar-se
ao alcance de todo mundo

 
Léon Bloy

Léon Bloy autodenominava-se "o peregrino do absoluto", "o mendigo ingrato", "o ivendável"... Língua profética e exacerbada, barroca e violenta, escreve com palavras de fogo, de escárnio e de dor (diz Borges que em seus escritos "abundam o queixume e a afronta"). Nasceu em Périgueux, em 1846. A maior parte da vida residiu em Paris. Morreu em Bourg La Reine em 1917, aos 71 anos. Depois de converter-se ao catolicismo aos vinte e poucos anos, disparava dardos e petardos para todos os lados, conseguindo indispor-se tanto com ateus e materialistas quanto com fiéis católicos e prelados. Léon Bloy, a mulher e os filhos conheceram a mais absoluta miséria - seus livros vendiam pouco, a imprensa sequer o citava, sua obra é de difícil digestão... Muitas vezes precisou esmolar para comer. No final da vida alcançou um certo reconhecimento entre os intelectuais e artistas franceses, mas viveu sempre marginalizado e pouco lido. (Não tenho notícia de livro seu editado no Brasil. Há um ensaio (esgotado) de Octávio de Faria, com muitos excertos traduzidos, "Léon Bloy", Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro, 1968.) Publico aqui o Prelúdio ao segundo volume da Exegese dos Lugares Comuns para que se tenha uma idéia da sua pena.

Roberto Mallet

 
 

Isto é o que me pedem. Acham-me muito extraordinário, muito inacessível. Sou igualmente incompreendido pelo notário, pela devota e pelo fabricante de supositórios. As afirmações rudimentares, os axiomas incontestáveis e até as obviedades mais evidentes tomam comigo um aspecto de mistério que ultraja o senso comum. Decidi portanto colocar-me ao alcance de todo mundo.

Mas ignoro como. Sou mesmo forçado a reconhecer que não sei o que essas palavras querem dizer. Devo entender que se está ao alcance de todo mundo quando se está situado de maneira propícia a receber de todos os lados bofetadas ou botinadas, situação, reconheço, que está bem pouco de acordo com meus hábitos e instintos? Quantas vezes, ao contrário, e com que força de cobiça, desejei, no mesmo sentido, que todo mundo estivesse ao meu alcance?

É verdade que esse desejo era absurdo, pois todo mundo é uma expressão ininteligível para designar uma coisa indiscernível. Quando me falam das pessoas do mundo, dos homens ou mulheres do mundo, meu pensamento vai de chofre a essa populaça elegante e estúpida, marcada com o selo do Príncipe dos demônios, pela qual Jesus disse que não rezaria. Compreendo logo a seguir, e sou mesmo tentado a correr ao cemitério mais próximo para contemplar, uma vez mais, a espantosa miséria dessas lajes orgulhosas que a santa de Dülmen via cobertas de trevas e que descem às vezes - já o fiz notar - abaixo do nível do chão, pouco tempo depois da sepultura.

Mas há uma multidão infinita de outra gente, todos aqueles que não podem ser ditos do mundo e que, entretanto, são implicitamente designados quando se diz: todo mundo. Nessa multidão há sobretudo gente pobre. Aqui minha razão falha e não vejo absolutamente como poderia, ao mesmo tempo, colocar-me ao alcance dos sepulcros negros e das vivas hóstias luminosas!

Colocar-me ao alcance de todo mundo, ainda uma vez! Vejamos! Oh, minha pobre alma, isto é possível? Responde-me, pois minha inteligência se cala. Estavas, esta manhã, na igreja, tentando unir-te, identificar-te com Jesus que doou-se a todos os homens. Rezaste, sem dúvida, tão bem quanto pudeste, pelos vivos e pelos defuntos. Com o risco de causar-me náuseas, chegaste mesmo a lembrar-te misericordiamente, suponho, daqueles que não são nem vivos nem mortos, que subsistem, ninguém sabe porquê, nas imundícies, e que são chamados de burgueses. É isto colocar-se ao alcance de todo mundo? Parece-me, ao contrário, que em um tal momento o mundo não era mais tangível para ti e que tu mesma te tornaste absolutamente intangível para ele... Tu não me dizes nada, tu também, e permaneço em minha questão como sobre uma estaca.

Eis-me então incapaz de fazer o que me pedem. Tentarei entretanto, já que estou acostumado com as tarefas impossíveis. Quem sabe? Talvez o mundo não seja tão vasto quanto se imagina. Quando uma pobre dona-de-casa remexe em sua lareira, espanta-se da quantidade de cinzas e do pouco combustível que lhe resta para cozinhar sua refeição e para aquecer sua casa. Pode ser que depois do preparo de minha precedente Exegese (1) eu encontre muito pouca coisa para colocar em meu forno e que Todo Mundo se reduza a algumas unidades vantajosas. Esse pensamento reanima-me.

 
 

In Léon Bloy, Exégèse des Lieux Communs - Nouvelle Série (Prélude), Mercure de France, Paris, 1913, pág. 7-10. Tradução de Roberto Mallet.

 

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