Grupo Tempo - Página de Abertura
Convívio por quê?


 

 

Quando o site do Grupo Tempo entrou no ar, em agosto de 1998, já continha uma dezena de textos para estudo. Em agosto de 2002 tínhamos publicado 75 textos, a maioria deles relacionada ao trabalho do ator, ao teatro e à poética em geral.

Pode-se, a partir desse conjunto de escritos, ter uma idéia dos princípios e temas que fundamentam meu trabalho poético, porém seu objetivo é mais universal: oferecer subsídios para a formação dos atores - particularmente de meus alunos. Uma parte desses textos é material de referência para a oficina "A Poética da Ação": são de autores que estudo ou cito em aula, e neles os alunos podem encontrar o desenvolvimento de um determinado tema, ou ler uma citação dentro do seu contexto original. Alguns outros são traduções de trechos de autores pouco (ou nada) editados no Brasil (Jouvet, Kantor, Meyerhold, etc.), a fim de lançar uma luz sobre artistas que são referência obrigatória para quem quiser fazer teatro hoje. Um terceiro grupo de textos relaciona-se às montagens do Grupo Tempo. Uma última parte desses textos não trata especificamente de arte. Ou, dito de outra maneira, trata dos fundamentos da poética do ator - ao menos como eu a entendo. São textos sobre filosofia, cultura, psicologia, etc. - e alguns de caráter mais literário -, cuja temática atravessa e transcende essa poética, fazendo parte já de uma cosmovisão, de um olhar filosófico sobre o mundo.

Já há algum tempo eu vinha pensando em abrir uma nova seção nessa página, uma seção pessoal, onde eu pudesse expor e discutir temas que não cabem no campo espefífico do ensino do teatro mas que são parte essencial da minha poética e da minha visão do mundo. Eu poderia assim não somente oferecer material de estudo àqueles que se interessam por meu trabalho mas também explicar-me sobre alguns de seus princípios e fundamentos (pois não há poética - nem pedagogia - que não pertençam a uma filosofia, ou pelo menos a uma cosmovisão).  (1)   Em minha prática pedagógica me esforço sempre em distinguir cuidadosamente o que é universal daquilo que pertence à minha forma pessoal de ver e fazer teatro, e a necessidade de criar essa página é fruto desse mesmo esforço.

Aproveito também para publicar páginas de autores muito pouco conhecidos, alguns por preconceito e outros simplesmente por habitarem fora do território demarcado pelas escolas, pela mídia, pelo mercado e pelo estado.

 
A divisão dos textos no site agora fica sendo: Montagens, Teatro, Poética, Índice por autor e Convívio.
 


 

Eu já havia utilizado o nome Convívio para um fórum que colocamos na internet há cerca de três anos. A idéia era estabelecer uma discussão sobre teatro, arte e cultura. Mas foram muitos os inscritos e poucos os escritos, e o fórum acabou ficando no esquecimento.

Em latim, "convivium" é tanto uma convivência quanto uma refeição em comum. A palavra é composta pelo radical "cum" e pelo verbo "vivo, -ere", que tem a dupla acepção de viver e alimentar-se. Essa comunhão em torno de uma mesa foi tomada por Dante como metáfora de seu "Convivio", onde o alimento servido é o pão da filosofia e da poética.

Entre os gregos era costume um grupo de amigos reunir-se para jantar e depois permanecer conversando, acompanhados de um bom vinho. O diálogo "O Banquete" de Platão acontece justamente numa dessas conversações, denominadas simpósios (de "sym", com + "píno", beber).

O título exprime a intenção de que este seja um espaço mais "íntimo", onde a conversação tenha em tom mais pessoal. Um pequeno banquete onde fragmentos daquilo que vou recolhendo em estudos, leituras e investigações são oferecidos aos meus amigos, colegas e alunos.

São Paulo, 5 de setembro de 2002.

 
 

Roberto Mallet

 
 

1. Entendo aqui por "filosofia" a atividade intelectual que busca integrar em um visão coerente todo conhecimento adquirido, um movimento da alma que almeja objetivade e universalidade. Já uma cosmovisão é particular, é expressão do homem concreto, é matizada por seus afetos, humores, manias, pela cultura em que vive, pela educação, etc. Por abarcar todos os aspectos e instâncias do homem, a cosmovisão pode ser mais ou menos coerente, mais ou menos universal, dependendo do grau de consciência que o homem tiver desses vários aspectos e instâncias e de suas inter-relações. Quanto mais consciência houver, mais a cosmovisão será matéria de reflexão e crítica, integrando-se, transformando-se numa filosofia encarnada, que coloca tudo aquilo que passa - cultura, história, afetos, etc. - sob a luz do que não passa, formando assim uma visão do cosmos verdadeiramente universal. Não é preciso dizer que na maioria dos homens a cosmovisão é determinada em alto grau pelo meio cultural e social.   [volta]
 

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